domingo, 23 de maio de 2010

"God save the Queen!"

Olá caros leitores,
Desculpem pela longa demora na postagem, mas os tempos atribulados de nossa era contemporânea me consumiram deveras nas últimas semanas.
Hoje vou dar uma pequena pausa na mitologia e partir para um novo assunto, a história, atendendo a algumas amigas que me pediram para falar um pouco sobre as soberanas que mudaram a história da nossa civilização. E devo dizer, que muitos vão se surpreender pois não foram poucos os exemplos de mulheres que ao ascender o poder, mudaram a forma que a sociedade enxergava seu papel "secundário". Na realidade, muitas desses mulheres soberanas acabaram se tornando lendas, mitos, que influenciaram toda uma nação e posteriormente os movimentos feministas do século XX.
Então, vamos a elas.

"Onde deusas são cultuadas, mulheres são celebradas"

O subtítulo pode parecer óbvio, mas não tanto. Hoje, sabe-se que no período que comumente se denomina de pré-história o homo sapiens sapiens, já senhor da Terra, criando seus cultos ancestrais para justificar sua existência dava um valor importantíssimo a mulher. Porque? Oras, porque a mulher era o símbolo da fertilidade, aquela que carregava o futuro da espécie. O aguçado sexto sentido feminino, hoje provado científicamente, era visto como um dom mágico dos deuses, conferindo as mulheres poderes místicos, mágicos e essenciais para aplacar a fúria dos fenomenos naturais, grandes inimigos de nossa espécie naquele período. Dai as representações femininas que os escultores da época criavam, como a "Vênus pré-histórica" ai ao lado. Essa representação de formas avantajadas não deve ser vista como "oh! eles gostavam de uma gordinha! veja só", mas sim como um hiper realismo. Ou seja, as partes do corpo da mulher que a tornavam especial para a sociedade, eram superdimensionadas para enaltecer seu importante papel de mãe da humanidade.
Acredita-se também, que as primeiras sociedades tribais antes do advento da "civilização" tinham mulheres como líderes supremos, pois elas eram aquelas que sabiam se comunicar com os espíritos e conduzir os demais para o local seguro (novamente o sexto sentido).

Mas o tempo passa. A natureza já não é assim tão assustadora, o homem a dominou e não precisa mais de sexto sentido para se sentir seguro. O problema agora é que tem humanos para todo lado e como já era de se esperar, a "superpopulação" traz conflitos pelos recursos escassos. Nessas condições, o caráter conciliador feminino cede espaço a belicosidade da testosterona e os antes espíritos comunicativos da natureza dão lugar aos violentos deuses guerreiros. Nasce assim a sociedade patriarcal, que vai invariávelmente contaminar grande parte da humanidade ao longo da Terra.

E surgem as cidades e a guerra se torna um negócio mais complicado. Não é mais só invadir a aldeia do outro, tomar o que ele tem e voltar pra casa. Agora existem cidades muradas, armas que matam com muito mais eficiência e indíviduos que se dedicam a tarefas que não envolvem desenvolver músculos para a guerra. Assim, com a mansidão voltando ao homem, volta a mulher a retomar um papel importante na sociedade.

Antes de mais nada, gostaria de esclarecer uma coisa que é muito mal explicada. O título de rainha, no geral, não tem o mesmo peso de um rei. Na realidade, a rainha só governa na ausência de um rei e essa ausência tem de ser breve. É como, guardadas as devidas proporções, o cargo de um Vice Presidente. Quando o presidente morre, o Vice se torna presidente. No caso da rainha isso pode ou não acontecer. Vai depender exclusivamente de sua capacidade política de domar os rivais. Portanto, a velha máxima "não existe reino sem rei" é a mais pura verdade.

Um exemplo claro do que digo vem do Antigo Egito. Não existe termo feminino para Pharaoh, pois um Pharaoh não é somente um título, mas uma condição. Uma rainha que seja considerada digna de ser um Pharaoh tem o mesmo estatus político e social de um homem. Portanto ela não é mais uma rainha do Egito, mas sim um Rei do Egito. E não faltam exemplos.
A primeira que se tem notícias, apesar de ser muito controvérsa é Neitkert. Atribui-se a ela a restauração da piramide de Menkauré (no grego, Miquerinos, a menorzinha das três grandes de Gizé, hoje no Cairo). Ela teria assumido o trono após seu marido, o Pharaoh, ter sido assassinado por conspiradores e acabou reunindo as condições para sagrar-se um Pharaoh., acredita-se que isso tenha ocorrido por volta de 2184 a.C.

Outra famosa rainha que se tornaria Pharaoh seria Hatchepsut. Ela, esposa do rei Tutmés I (cuja história foi eclipsada pela magnitude de sua esposa e pouco se sabe sobre ele) teve de assumir a regência quando este faleceu e seu sobrinho, Tutmés III era muito jovem para governar. Os historiadores divergem quanto a idade em que ela assumiu (se entre 15 ou 20 anos). O que ninguém discute é o poder que ela exerceu sobre os egípcios e que mais tarde seria coroada Pharaoh sem contestações. Para legitimar seu poder, a mãe de Hatchepsut disse que fora visitada pelo deus Amon-Ra, que assumindo a forma do rei Tutmés I a informou que a filha que nasceria da união deles seria o novo Pharaoh do Egito. Os sacerdotes não queriam acreditar na história, mas como quem mandava agora era Hatchepsut e eles viviam na mordomia graças a ela, tiveram de corroborar com a historia e justificar portanto a ascenção da jovem rainha ao posto mais alto do reino egípcio. Seu governo transcorreu sem grandes percalços, paz e prosperidade. Acredita-se que ela conduziu algumas campanhas militares na Núbia (sul do Egito) com um general, que possivelmente foi seu companheiro durante seu reinado. Contudo, Hatchepsut foi inteligente o bastante para não se unir a nenhum homem e assim ser forçada a abdicar do poder conquistado. Ela reinou por volta de 1479 a 1457 a.C.

Já após a era de ouro egípicia (O reinado de Ramses II, o rei dos reis), uma nova Pharaoh seguindo os passos de Hatchepsut assumiu o trono após a morte de seu marido. O nome dela era Tausert, que significa "A poderosa". Tausert governou por dois anos oficialmente, mas uma vez que Siptah, o filho de seu marido Sethi II (Que não era filho dela por sinal) tinha uma saúde frágil (A análise da múmia indica que ele tinha uma perna atrofiada por conta de Poliomielite) provavelmente fora ela quem governou durante todo o tempo nos bastidores. O sucessor de Tausert usurpou a tumba que ela deve ter mandado construir no vale dos Reis e a múmia da rainha nunca foi encontrada. Algo curioso é que os registros apontam a atuação de um chanceller que foi o grande braço direito de Tausert, uma pessoa que deve ter tido uma importância tremenda no governo da Pharaoh, para ter merecido uma tumba de dignatário no vale dos reis, algo raríssimo.

E claro como não poderia deixar de ser ao falar sobre rainhas egípcias, chega a hora da mais famosa delas. Cleópatra. Primeiramente, apesar de ser considerada Egípcia, devemos nos lembrar que Cleópatra já faz parte da casta de egípcios de linhagens macedônicas. Ou seja, Alexandre o grande já passara por lá, conquistara o Egito e tomara o poder para um de seus generais, que após a sua morte tornou-se no novo "Pharaoh do Egito". Assim Cleópatra é muito mais grega que egipicia, diferentemente de suas antecessoras. Ainda assim, seu reinado foi uma demonstração de como uma mulher no poder pode ser uma estrategista inigualável. Após a morte de seu pai, Cleópatra casou-se com o irmão, que seria o novo Pharaoh. Era um costume comum que os membros da família real se casassem para assim preservar o poder. Contudo o irmão, muito mais jovem era uma marionete nas mãos dos cortesão egípcios. Percebendo que quem mandaria no mundo era Roma, Cleópatra enviou barcos para auxiliar Pompeu, que lutava contra César pelo controle da República. Acontece que os egípcios não gostaram da história e colocaram o povo contra ela, que se viu obrigada a fugir do país. Pompeu acabou perdendo a guerra e foi refugiar-se no Egito. Mas o irmão de Cleópatra, querendo agradar o vencedor mandou matá-lo e enviou a cabeça do infeliz para o romano. Ledo engano. César, furioso, e com uma desculpa mais que justificável, invadiu e conquistou o Egito para os romanos. Cleópatra, muito esperta, pediu uma audiência com o novo Tirano de Roma (Tirano na roma antiga era um ditador, mas não tinha nada a ver com o que conhecemos hoje por governante malvado). E ela o seduziu, enrolando-se num tapete e ordenando que seus servos a entregassem de presente ao conquisatador. Cleópatra teve um filho com César,
a cultura egípcia começou a fincar bandeira em Roma e tudo parecia transcorrer como ela desejava. Mas os senadores resolveram matá-lo no senado e a casa caiu para Cleópatra. Aliando-se ao braço direito do antigo amante, o general Marco Antônio, Cleópatra acreditou poder assegurar a independência de seu país. Mas ela encontrou um adversário de peso. Otávio, que tornaria-se o futuro e primeiro imperador de Roma, sob o título de Augusto, que para os romanos era a mesma coisa que Deus.


Mas o que explica então esse poder que as mulheres egípcias adquiriram, que foi somente muito tempo depois disseminado pelo resto do mundo e que em muitos lugares jamais aconteceu? Uma das explicações pode estar na cultura mitológica dos egípicos. Afinal, a dinvindade mais cultuada no Egíto era Hathor (Também identificada como Isis), a deusa da fecundidade, cujo culto era totalmente conduzido por mulheres. A divindade mais respeitada era Maat (aquela cuja pena vai pesar seu coração no pós vida). Isis era a esposa de Osíris e foi ela, a "Grande esposa" que governou o Egito enquanto o filho deles, Hórus, não tinha idade suficiente para assumir o trono. Ou seja, os mitos de mulheres deusas que poderiam governar na ausência de homens, prepavaram terreno para que no plano físico isso fosse aceito com mais facilidade.

"As guerreiras e as bruxas"

Vamos dar um saltos agora. Sair do Egito e ir para os Balcãs. Ainda no período repúblicando, quando Roma ainda era governada pela "democracia" dos patrícios, uma mulher ascendeu ao poder após a morte de seu marido. Seu nome era Teuta e ela era a rainha dos Ilírios. Os Ilirios eram um povo cuja especialidade era a pirataria no mar mediterrâneo e os romanos, afeitos ao comércio não gostava nada daquilo. Durante o reinado de Teuta, seu povo anexou várias outras terras ao redor e crescia em poder e influência. Então Roma mandou uma missão dipomática para ter com essa Rainha pirata. Diante do desrespeito que o embaixador demonstrou para com a soberana, Teuta não teve alternativa se não decapitar o embaixador e declarar guerra a Roma. Azar o dela. Com o pretexto armado, Roma invadiu e conquistou. Teuta vendo que não teria saída se rendeu e os romanos a deixaram governar. Desde que pagasse tributo a eles pelo resto dos seus dias.

Agora vamos para a Bretanha. Tenho uma amiga que se tornou fã de uma certa rainha celta, que durante muito tempo permaneceu no esquecimento, mas cuja lenda foi retomada durante o reinado de outra poderosa rainha, talvez a mais famosa entre elas. O nome dessa infeliz celta era Boudica. Infeliz porque ela se tornou rainha em circunstancias excepcionais e parece que os deuses Celtas viraram as costas para ela e correram. Quando os romanos, lá pelos idos de 60 d.C chegaram a Bretanha (o que hoje é chamado de Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales) o Rei dos Icenos, um povo celta que habitava a região aliou-se a eles para mater seu povo independente. Acontece que durante uma guerra contra povos rivais o rei morreu e os romanos não quiseram nem saber de manter o acordo. Conquistaram os Icenos, açoitaram a rainha Boudica diante de seus súditos e violentaram suas filhas. Depois as expulsaram da sua terra.
O problema é que Boudica não era flor que se cheirasse. Diziam-se que ela era alta, ruiva e que tinha uma voz assustadoramente poderosa. Ela acabou se tornando o pior flagelo romano na região. Reuniu um exército grandioso, destruiu três colonias romanas na região, matando por volta de 80.000 pessoas uma delas Londinium, que hoje é a capital da Inglaterra, mas que Boudica sem dó nem piedade jogou pro chão e reduziu a cinzas. Os romanos se reorganizaram e foram para a luta. Apesar de não se saber exatamente onde ocorreu o embate entre os exércitos liderados por Boudica e os Romanos, sabe-se que ela perdeu. E o motivo é simples. Os romanos eram os senhores da guerra em seu tempo e ninguém os derrotava. Diz-se que para não cair nas mãos deles novamente a rainha celta se matou. Mas seu legado permaneceu no trabalho dos historiadores romanos e mais tarde seria evocado como ideal romantico da formação do orgulho Britanico pelo governo da Rainha Vitória.

Agora vamos para a África. E meus caros amigos, essa aqui vai surpreender vocês.
Lá pelos anos de 1622, o entreposto português na costa ocidental da África recebeu uma delegação diplomática do povo Ndongo. A frente deles seguia uma mulher, irmã do rei dos Ndongo que seria a interlocutora entre seu povo e o governador português João Correa de Souza . O motivo, os portugueses pararem de capturar escravos ou de recrutar seu povo para capturar escravos na região e, principalmente, que desmontassem a fortaleza que construíram na costa de suas terras. O nome dessa rapariga era Nzinga Mbande. Diz-se que ao chegar ao local da conferência, o governador português não deixou uma cadeira onde ela pudesse se sentar. No lugar colocou um tapete, o que a deixaria em posição desfavorável em relação a ele. Sem pensar duas vezes, Nzinga ordenou que um de seus criados ficasse de quatro sobre o tapete e ela sentando-se sobre ele ficou na mesma altura do governador português durante toda a conferência, demonstrando assim, que eles tratariam com uma igual. João falhou em convencer a mulher com seus argumentos para justificar suas ações, para cada proposta, Nzinga vinha com um desarme. Mas a habilidade diplomática da embaixadora os conduziu a um instável acordo de paz. Para selar seu compromisso Nzinga se converteu ao Cristianismo.
Os portugueses por sua vez não cumpriram o acordo. E o irmão de Nzinga envergonhado se matou. Ela então assumiu o trono como regente de seu filho, que morreu logo depois e assim ela assumiu definitivamente o posto de Rei dos Ndongo, pois recusou terminantemente ser chamada de rainha.
Um novo governador portugues chegou. Nzinga ordenou que o acordo fosse cumprido, mas os portugueses deram de ombros. Então ela foi para a guerra. Os portugueses levaram a melhor e a expulsaram de suas terras. Nzinga levou seu povo para a região de Imbangala, onde para reforçar sua posição, diz-se, adotou os cultos canibalísticos dos povos da região. Não se sabe ao certo se essa história é verdadeira ou se foi espalhada pelos padres portugueses para desqualificar a imagem da rainha. O que acontece é que ela manteve o poder e logo atraiu a atenção dos Holandeses que dominavam o Congo, que ofereceram ajuda para que ela retomasse suas terras em troca de acordos comerciais. Vendo ai uma oportunidade única Nzinga aceitou, derrotou os portugueses mas não conseguiu expulsá-los do território. Os portugueses contra atacaram. Os holandeses tomaram Luana e quando Nzinga estava prestes a expulsar os lusos da terra, eis que nossos patrícios brasileiros vieram em seu socorro comandados por Salvador de Sá, ex-governador do Rio de Janeiro, que lutou contra a invasão holandesa no nordeste e veio ajudar os portugueses a expulsar os holandeses dessa região da África também. Mas Nzinga manteve os territórios conqusitados e os portugueses tiveram de reconhecer sua autoridade. Nzinga comandou os exércitos em cada combate, acredita-se até os sessenta anos.
Durante seu reinado pós guerra, seus maiores esforços eram o de repatriar ex-escravos. Ela tentou reconstruir sua nação, devastada pela longa guerra e todas as tentativas de destroná-la fracassaram. Nzinga morreu aos oitenta anos, tranquilamente. Somente após a morte de Nzinga é que os portugueses conseguiram conquistar o território, que seria chamado de Angola, por um erro. Ngola era o título dos nobres da região. Conta-se também que a rainha tinha um harém inverso, ou seja um harém só de homens e que uma de suas diversões era vê-los brigar pelo direito de dormir com ela por uma noite. Nzinga hoje é a heroina da identidade nacional Angolana. Há ruas em sua homenagem e uma estátua na capital onde todas as noivas vão para tirar fotografias, na esperança de que a Rainha Guerreira conceda força e felicidade a seu casamento.

Na Ásia, existia um mito, de uma rainha bruxa que governava o povo dos Wa. Os chineses chamavam aquele povo bárbaro que vivia numa ilha oriental de Wa e quem os governava era a rainha xamã Himiko. Pouco se sabe sobre ela, e se ela realmente existiu. Há relatos dos escribas chineses, mas só. Diz-se que ela ocupava-se de magia e que seu povo nunca a via. Ela não se casara e que seu palácio era cercado de torres, ela cercada de milhares de criadas e um único homem. Ainda assim, Himiko (ou Pimiko) figura entre as históricas figuras femininas que ajudaram a construir a cultura de seu povo, os japoneses.



"Rainhas modernas"

Como falar de Rainhas e não falar das mais famosas delas?
Vou começar pela responsável pela nossa existência portanto. Isabella de Castile e Leon, ou Isabella I. A rainha que expulsou os mouros da península ibérica, unificou a Espanha e patrocinou a expedição de Colombo a América. Pouca coisa não? Bom ela era uma religiosa fervorosa também. E compadeceu-se dos povos indígenas do novo mundo, proibindo que seus súditos, os espanhóis, os fizessem mal. Acontece que a Rainha estava muito longe e os índios muito perto, pobres índios. A mãe dela ficou louca quando era criança. Sua infância foi a de uma pobre aristocrata, pois a Espanha não existia. Os mouros detinham metade da península hibérica e ela teve o azar (ou sorte) de nascer cristã. Assim ela caçava coelhos nas florestas (para comer!) junto com o irmão, tomava banho de cachoeira e montava a cavalo, coisa rara para uma nobre cristã de sua época. Sua mãe, antes de enlouquecer, lhe garantira uma educação decente, para que a jovem pro-ativa arrumasse um marido rico que lhe desse uma vida melhor. Bom, Isabella tinha outros planos. Quando a filha da rainha Joana, esposa do Rei estava para nascer, Isabella e o irmão foram convocados a corte (pois se a menina nascesse e fosse mesma filha do rei, pois essa rainha era bem promíscua eles não teriam seu direito ao trono assegurado). E como ninguém acreditava que a criança fosse mesmo filha do rei os cortezãos se apressaram para que os possiveis herdeiros estivessem presentes no caso de uma reviravolta. A vida da jovem Isabella melhorou bastante. Agora ela não precisava mais caçar coelhos e tinha quartos adornados com ouro. A vida na corte era conturbada. Os senhores feudais queriam tirar poder do rei e forçar ele a abidicar em favor de seu filho, que poderia ser controlado mais facilmente. Ele o fez, mas o filho morreu (provavelmente envenenado) e a bomba caiu nas mãos de quem? Ela mesma. Agindo diplomáticamente, Isabella conseguiu dois trunfos. Assumiu o poder sem derramar sangue e conseguiu consentimento do pai para que ele não a forçasse a se casar com ninguém sem seu consentimento.
Para que pudesse assegurar o reino, Isabella precisava se casar com alguém. Mas os pretendentes eram difíceis, ou porque ela não queria ou porque o pai não queria. Sobrou Fernando de Aragão, que havia sido o "marido original" pois eles foram prometidos ao casamento quando ambos tinham 3 anos de idade, mas o acordo fora desfeito pelos pais. Acontece que havia um problema espiritual na união. Os avós dos dois eram irmãos e só o papa poderia consentir o casamento. Isabella, religiosa só aceitaria o casamento com o consentimento do Vigário de Roma. Descobrindo o intento, o pai dela tentou impedir o casamento, pois lhe era desfavorável, mas o Papa acabou consentindo e os dois se uniram.
O reinado de Isabella foi o início da ascensão da Espanha como potência mundial. O encontro da América por Colombo deu a nascente nação um impulso inigualável. Contudo, Isabella, religiosa fanática, reforçou a posição da inquisição em suas terras expulsando os judeus e muçulmanos que viviam ali ou convertendo-os a força. Diz-se que inclusive, ela era melhor regente que seu marido e que a colonização da américa se deu basicamente pelo povo de Castile, por isso comumente se diz que o espanhol falado na América é o Castelhano.

Outra importante Rainha reformadora foi Catherine II da Russia. Ela viveu em um período conturbado, revoluções pipocando por toda parte e a nossa era contemporânea estava nascendo. Durante seu reinado a Russia cresceu horrores. Anexou territórios por toda a região. Catherine foi uma modernizadora, sempre antenada com o que ocorria na Europa Ocidental. Um marco na história da Rússia, uma vez que o país esteve sempre voltado para a região oriental. Sua ascenção ao poder se deu através de uma conspiração e ela reinou durante 37 anos, com mão de ferro. Também é conhecida por ter tido inúmeros amantes e de ter sido deveras generosa com eles. Ela morreu de um derrame.


E claro, para coroar esse post tão cheio de coroas nada mais justo do que falar sobre as duas maiores e mais famosas rainhas da história. Elizabeth I e Victória da Inglaterra.

A primeira amplamente conhecida, graças aos inúmeros filmes que a retratam dispensa comentários. Elizabeth é filha de Anne Boleyn, a mulher que virou a cabeça de Henry VIII e fez com que o rei criasse uma igreja só para se casar com ela. A mãe de Elizabeth terminou decapitada quando a jovem princesa era ainda um bebê, mas os genes da mãe foram mais fortes nela. Elizabeth se tornou a herdeira da dinastia dos Tudor, governou a Inglaterra por 44 anos e foi responsável pela fundação do Império Britânico, com a incontestável vitória sobre a Invencível Armada de Espanha, potência indiscutível na época. Elizabeth era uma mulher forte, determinada e que a exemplo de outras rainhas poderosas não se uniu a homem nenhum para legitimar seu poder indiscutível como Rainha da Inglaterra. Na realidade, mantendo-se "virgem" e solteira, Elizabeth assim como as Pharaohs egípcias, adquirira o respeito dispensado apenas aos Reis, feito que não será equiparado por nenhuma outra rainha de seu tempo e posterior.

Se Elizabeth fincou a bandeira. Victória construiu a casa. Reinou por 64 anos e detinha uma míriade de títulos. Essa mulher era praticamente dona do mundo.
Para ascender ao trono ela teve de esperar quatro filhos homens morrerem. Coroada aos 18 anos. Ela cresceu isolada, não lhe permitiam ter contato com outras crianças ou com quem quer que fosse sem o consentimentos daqueles que cuidavam dela, sua mãe e o amante dela. Quando Victoria assumiu o trono baniu o amante e mandou a mãe para bem longe, nunca mais querendo vê-la. Graças a extrema moralidade de sua mãe, Victoria acabou impregnada de idéias repressivas em relação a sexualidade, o que mais tarde seria uma conduta adotada por toda a sociedade Britânica, conhecida por Era Vitoriana.
No seu diário ela diz que um dia foi acordada por sua mãe as seis da manhã dizendo que o Arcebispo de Canterbury (Líder da igreja anglicana) precisava vê-la. Ela foi de roupa de dormir mesmo até o encontro do arcebispo na sala de reunião e ele a informou que seu tio, o Rei não estava mais entre eles. E portanto ela era a Rainha da Grã Bretanha.
Como uma mulher sem filhos não poderia governar nesse período trataram logo de arrumar um marido para a jovem.Que viria a ser um alemão, o principe Albert. Foi amor a primeira vista.
Mas nem todos amavam a rainha. Quando estava grávida do primeiro filho ela sofreu um atentado, mas o atirador errou os dois disparos que fez. Ela sofreu outro atentado que igualmente foi frustrado. O casal, teve nove filhos e agora sabe-se que Victoria utilizou-se de anestesia para um dos partos, algo extremamente inusitado para a era em que vivia.
Após 21 anos de casamento feliz, o principe Albert morreu de febre tifóide e isso a devastou completamente. Victoria voltou a se isolar e sua popularidade começou a cair, mas ela foi recuperada no final de seu reinado.
A Grã-Bretanha nesse período já era uma monarquia constitucional como é hoje, contudo a figura da rainha era muito mais importante. Foi durante seu reinado que os britanicos se consolidaram como modelo a ser copiado. Venceram as guerras napoleonicas, colonizaram metade do mundo e expalharam sua própria língua pelos quatro cantos da Terra, e que mais tarde se tornaria a língua franca da Terra, a despeito de Franceses e e Espanhóis.

"Enfim o feminismo"

Com a industrialização e depois com as guerras, as mulheres passaram a retomar seu poder na sociedade, que agora já não poderia mais se sustentar em antigas tradições, pelo menos no mundo ocidental. O feminismo portanto trouxe conceitos da antiguidade para evocar o poder feminino, contudo o erro das feministas do início do movimento, hoje apontado pelas próprias, foi ter tentado igualar-se ao homens em todos os aspectos. Como podemos ver nos exemplos de sucesso das mulheres que alcançaram o poder no passado, esse tipo de enfrentamento normalmente resulta em uma ampla resistência. Mulheres e homens são diferentes, pensam diferente, governam de formas diferentes e isso já era sabido desde o tempo das cavernas. Se mal ou bem, o tempo é que vai julgar. Contudo, vale uma ressalva. Alguém já ouviu falar de alguma "Ivana, a Terrível?"

domingo, 2 de maio de 2010

"A dura Vida dos mortos"


Bem... acontece que você subiu no telhado, bateu as botas, juntou os pés, foi comer grama pela raiz, descansou, fez a passagem, ou seja, você morreu. Mas o que julgava ser um merecido e tranquilo descanso vai se revelar o início de uma grande jornada de provações, dependendo de onde você morreu e no que acreditava. Bem vindo a dura vida dos mortos!

Hora do julgamento!

Você desperta em um lugar estranho e a sua frente há um gigante com cabeça de cachorro nada amistoso. Bem, isso não lhe seria surpresa alguma se você morasse no Antigo Egito. Isso significava que seu corpo havia sido mumificado, que seus parentes e amigos tinham feito os rituais adequados e agora finalmente você poderia colocar sua existência em jogo. É porque para eles não bastava morrer. Morrer era só o primeiro passo da existência. Agora era a hora da verdade! O gigante em questão é Anubis, o responsável por conduzir os mortos até o julgamento de Osíris. Diante do Deus morto estava a balança da verdade, onde seu coração (isso mesmo seu coração) seria pesado. O contra peso seria a Pena de Maat (verdade), que representava todas as diretrizes que você, egípcio, teria de seguir em vida se quisesse continuar existindo. Veja que, eles estão pesando o seu coração com uma pena! Se a balança permanecer equilibrada você poderá ir viver no Sekhet Aaru (Campos de junco), o paraíso, onde você viveria feliz com seus escravinhos de barro repetindo a vida que levava na terra sem se preocupar em sofrer. Contudo, se a balança pendesse para o lado do coração... Uma quimera infernal (um monstro de três cabeças, sendo crocodilo, leão e hipopótamo) chamada Ammut surgiria do nada e devoraria sua alma, relegando-o ao oblívio. Ou seja, a inexistência. Você simplesmente deixaria de existir, ninguém se lembraria de você. Você não seria mais. Esse era o pior de todos os castigos para os egípicos, muito mais que a morte ou sofrimento. Então, se quando morrer se deparar com um homem com cabeça de cachorro é bom ter sido uma boa pessoa ou não adianta nem apelar, a lei de Maat é implacável!
Mas se você acha isso aterrorizante, espere até ver como um Asteca alcançava o paraíso.

"Hora do desafio!"

Quando você abriu os olhos, só existia um homem negro, sem um dos pés a sua frente. No seu pescoço estava um espelho enfumaçado e ele não tinha cara de bons amigos. Na realidade quando ele abria a boca você podia ver as presas de jaguar bem afiadas reluzindo na escuridão. Tezcatlipoca (ele mesmo, o irmão encrenqueiro de Quetzalcoatl do último post) é quem recebe você na passagem do mundo meso americano. Primeiro ele vai se certificar de como você morreu. Se era um homem guerreiro e morreu na batalha ou uma mulher valente que morreu parindo vai te mandar para o paraíso do Sol. Se morreu afogado, vai para o paraíso de Tlaloc (Deus das chuvas) agora se você é um infeliz que morreu de qualquer outra maneira, meus pesames, vai ter que penar pra conseguir o paraíso.Ele vai te mandar atravessar nove lugares tenebrosos para enfim se apresentar ao deus dos mortos e pleitear a sua entrada no paraíso. O primeiro deles já é uma pedreira. Você terá de atravessar um rio caudaloso, mas jamais conseguiria sozinho. Então um cachorro gigante chamado Xolotl, vai te ajudar. Acontece que se você alguma vez maltratou um cão na vida, o cachorro nem vai olhar para sua cara e você ficará vagando pelo mundo como uma alma penada. Caso você tenha sido bom com os animais, ele vai te ajudar a atravessar. Mas do outro lado o que te espera não é nada amistoso. Vai encontrar um lugar onde montanhas se chocam, onde nevascas cortantes como agulhas lhe fustigam, onde chovem lâminas afiadas, terá de atravessar um deserto congelado, depois um em que mãos invisíveis te crivam de flechas, um pântano em que monstros tentam devorar seu coração e finalmente um lugar onde você não enxerga nada e ainda sim tem de vaguear entre nove rios para enfim chegar ao senhor dos mortos. Acabou? Não. Agora ele vai te pedir a oferenda, hahaha! E ai de você se quiseram te sacanear. Quando um azteca morria, colocavam uma lasca de jade na sua língua e o morto teria de carregá-la por todas as provações até o deus do Mictlan para enfim apresentar a ele a lasca de jade que permitiria ao morto entrar no paraíso. Se você não tivesse essa lasca ele te mandava voltar por tudo isso ai e viver como alma penada entre os vivos. Sacanagem.

Entre os Maias não era muito diferente. O nome da morada dos mortos para eles era Xibalba que era composto por sete casas e cada uma tinha um demônio sacana. E mesmo pra chegar até lá já tinha desafios a cumprir. O primeiro era atravessar um rio cheio de escorpiões, depois um cheio de sangue e o terceiro cheio de pús (ECA!). Depois você chegará a uma encruzilhada com quatro direções a seguir e em cada uma delas há um engraçadinho que vai fazer você se perder e voltar sempre pro mesmo lugar. Se você conseguir passar disso chegará a Xibalba. Lá os seis demônios te esperam, com uma porção de cópias deles e você deve descobrir quais são os verdadeiros. A cada erro eles vão zombar de você. Quando você descobrir, vão te pedir pra sentar ao lado deles, mas esses demônios são sacanas. O assento destinado a você é uma frigideira fervendo. Depois de te fazerem de palhaço vão mandar pro teste de verdade. Cada uma das seis casas tem um desafio. A primeira é absolutamente escura e você tem de atravessar as cegas sem ponto de luz pra te guiar. A segunda é um freezer absurdo onde até seus ossos podem congelar e se partir. Para dar uma esquentadinha, na terceira você vai ter que correr de uns jaguares famintos, na quarta de uns morcegos vampíros famintos, na quinta de lâminas que voam pra lá e pra cá e na sexta e última atravessar uma sala tão quente quanto o interior de um vulcão. Se passou tudo isso inteiro, parabéns o paraíso é seu.

"Morte melancólica"

Mas se você nasceu grego antigo, bom a coisa será mais fácil. Hermes, o deus mensageiro, irá te conduzir a entrada do mundo dos mortos e tudo o que você precisa fazer é pagar o barqueiro Caronte. E acredite, ele é bem sovina. Tão sovina que matou seu próprio irmão Corante (isso mesmo o nome dele é Corante, agora entenda o porque) só porque este descobriu que ele o estava roubando. Caronte o afogou no Aqueronte (Rio das Dores) e desde então o rio foi tingido com seu sangue e ficou vermelho (por isso Corante é nome de tinta). Caronte é feio que doi e por isso usa uma máscara para não assustar os "clientes". Se alguém quisesse te sacanear, não colocaria a moedinha na boca de seu cadáver e assim, você não poderia pagar o barqueiro e ficaria forçado a viver como alma penada eternamente. Se você pagar sua passagem só de ida pro Hades, quem te recebe do lado de lá é o cão infernal Cerberus, que tem três cabeças para ter certeza de que nenhuma alma arrependida queira voltar pro mundo dos vivos. No Hades, você vai viver em melancolia para o resto da sua existência. Paraíso para os gregos só para aqueles que os Deuses agraciassem com a estada nos Campos Elísios  Caso contrário é sofrimento mesmo. Mas poderia ser pior. Dependendo da sua perfídia, você poderia ser condenado ao Tártaro, o pior lugar do Universo. Lá você seria obrigado a sofrer o seu pior pecado. Digamos que você fosse guloso e que por isso fez muitos sofrerem. Bom, agora você será obrigado a ver a comida e a bebida, e nunca alcançá-las... PELA ETERNIDADE!

Se você nascesse no Japão, você seria mandado para o Yomi. Independente de ter sido, bom ou mau, herói ou vilão, na mitologia shinto todos vão pro mesmo lugar e ficam lá, no escuro, deprimente e solitário leito de morte para sempre.

Esse também era o destino dos infelizes Nórdicos que não morressem com uma espada nas mãos. Se você fosse nórdico (também conhecidos como Vikings pela cultura popular) e morresse numa luta sangrenta, parabéns. Tão logo fechasse os olhos veria as lindas Valkírias, mulheres guerreiras aladas, que viriam buscar sua alma e levar para o Valhala, o palácio dos cadáveres de Odin, onde você, seus amigos e inimigos lutariam o dia inteiro e festejariam a noite inteira até o Ragnarok (Fim do mundo). Mas se você morreu de qualquer outra maneira, pobre infeliz, você vai mesmo é pro Niflheim. Lá governa a terrível Hel. Uma deusa que é metade mulher metade cadáver. O Nifleheim tem três níveis, um deles só habitado por heróis e deuses em festa. No outro, pelos bons que foram incapazes de morrer lutando (idosos, doentes, crianças e mulheres) e por fim o terceiro piso era para onde as pessoas ruins eram mandadas para serem torturadas... PELA ETERNIDADE!

"Purificando a alma"

Já não bastasse o sofrimento da vida, teríamos também de passar por sofrimento na morte? Bom, para algumas tradições sim, dependendo da sua conduta em vida. Para os casos acima, excetuando alguns, nem todos eram merecedores do paraíso, mesmo que se arrependessem ou que fossem purificados pelo sofrimento. Gregos, nórdicos e egípcios, por exemplo, não costumavam dar segunda chance aos pecadores. Para as religiões derivadas do hinduísmo e do judaísmo, contudo, isso não é bem assim.
Hindus, budistas, janaístas, etc. Acreditam que as almas impuras eram enviadas para o Niraya. O lugar de sofrimento terrível, mas que tinha um propósito, purificar a alma pecadora para que ela pudesse alcançar a salvação.

Para os Incas, os pecadores voltavam para o Uku Pacha, o lugar de onde todos vêm e esperavam para renascer e ter outra chance e continuariam nessa sina até poderem ascender ao Hanan Pacha, o paraíso onde viveriam próximos, mas não junto aos deuses. Para eles viver era uma oportunidade e irritar os deuses era um perigo, pois ser mandado de volta ao Uku Pacha significava sofrer a espera de poder nascer outra vez no Kay Pacha (nosso mundo).

Para Judeus, Cristão e Muçulmanos, após a morte a alma descansa  Sim. Apesar de muitos religiosos de seitas cristãs (Católicos, Protestantes e Ortodoxos)afirmarem que as almas dos pecadores vão direto pro Inferno isso não é verdade segundo os próprios conceitos de sua religião. Assim que morre, o indivíduo dorme até o dia do Juízo Final, quando finalmente seus atos serão julgados por Deus e ai sim ele será condenado ou absolvido de suas faltas. Condenado, será lançado no Inferno, onde permanecerá até que sua alma seja purificada. O inferno para as três religiões abraâmicas  portanto, não é um fim, mas sim um meio, assim como nas de tradição hindu. É um "mal necessário", o castigo final de Yaweh/Alah para que a lição seja enfim aprendida e o pecador possa afinal, alcançar seu lugar ao lado d'Ele.

Mas então porque o dogma do Inferno é tão presente no cristianismo em geral? Acontece que a nascente Igreja Cristã em Roma, de modo a convencer e converter melhor e mais rápido os pagãos à sua fé, teve de adaptar-se as crenças da época. O Inferno cristão tradicional é muito parecido com o Hades/Tártaro Grego. A adoração de imagens, um contra ponto em relação às outras tradições abraâmicas  também é um reflexo dessa necessidade de conformação a um mundo diferente do que era encontrado na região em que Cristo teria vivido. Assim, com o passar dos anos e a amálgama de várias culturas, a religião cristã européia, cuja Igreja Católica é a herdeira direta, assumiria uma forma de culto cristão peculiar que mistura elementos pagãos e cristãos numa liga muitas vezes complexa de se entender. O protestantismo, numa tentativa de afirmar-se diferente, aproximou-se mais da tradição judaica. Mas não abandonou a ideia pagã do Inferno de sofrimento eterno para os pecadores.

"Descanse em paz"

Mas nem todos deveriam passar por algum teste ou sofrimento. Os Celtas acreditavam que após a morte, independente da sua conduta em vida todos mereciam o paraíso, pois todos eram imaturos e impuros diante dos deuses. Curiosamente, ainda assim eles não se matavam por qualquer besteira ou não cometiam atrocidades mil só porque não tinham o perigo de serem castigados no pós vida.

E mesmo para aqueles que não seguem nenhuma tradição religiosa, a morte é um mal necessário. Afinal, a vida só pode existir graças a morte de outros seres. Assim, a morte, essa dama tão temída, vive de mãos dadas com a vida. A vida te empurra ao nascer, mas é nos braços da morte que você vai parar. Hehehehe!

domingo, 25 de abril de 2010

"Quetzalcoatl"


Olá amigos! Estou feliz que estejam gostando do blog isso me motiva a continuar.
Contudo, antes que os mitólogos, historiadores e amantes da cultura Pré-colombiana me crucifiquem pela frase de efeito que utilizei na postagem anterior, vou me explicar.
Na realidade, o culto a Quetzalcoatl não se estendia até a América do Sul, isso é amplamente discutível, alguns apontam que poderia ter chego até a região em que vivia o povo Arawak (extremo norte do nosso subcontinente), mas isso ainda não é totalmente comprovado. Quando me referi ao Peru, e, portanto, a zona de influência dos povos andinos, estou fazendo referencia a um outro Deus, muito antigo, e venerado naquela região por muito tempo, cuja história se assemelha muito ao do Deus Tolteca. Estou me referindo a Wiracocha, o deus andino que segundo as tradições, teria criado os homens, lhe ensinado a agricultura e depois partido prometendo um dia voltar. Ainda que não sejam considerados o mesmo Deus, os dois guardam essa semelhança e poderiam ser variações de um culto mais ancestral, portanto para que não se deixem mal entendidos. Apesar das semelhanças Wiracocha (De quem falarei numa postagem futura) e Quetzalcoatl são dois deuses de culturas distintas (Como Odin e Zeus por exemplo).

Agora vamos ao que interessa!

"Para nos situarmos"


Como na maioria das religiões pagãs muito afora a origem dos Deuses varia muito de lugar para lugar, região para região de acordo com a amplitude territorial que seu culto se estabelece. No que hoje é o México e parte da Amércia Central (Guatemala e Honduras) não foi diferente. A data em que a região começou a ser ocupada ainda é tema de acalorados debates na academia científica. Mas, seguramente pode se afirmar, que uma das primeiras culturas a se estabelecerem na região foi a dos Olmecas, a base do que passaria muitos anos após ser a cultura identificada como Meso Americana, comumente associada aos derradeiros detentores de suas tradições: Maias e Astecas.
Pretendo num futuro próximo discorrer melhor sobre esses povos e o avanço dessa cultura que para nós chega distorcia e muitas vezes de forma preconceituosa, sempre atrelada a sua forma mais chocante para nossa sociedade, a questão dos sacrifícios humanos e principalmente as grandes pirâmides que restaram de sua civilizações. Hoje, contudo quero lhes apresentar o outro lado dessa cultura, que raramente, por motivos provavelmente óbvios sempre é negligenciada.
Existe um lugar fantástico no México, que poderia seguramente ser considerado a "Jerusalém" dos povos que habitavam a região. O nome desse lugar é Teotihuacan. Trata-se de um centro cerimonial com dezenas de templos menores e três monumentais piramides sendo elas identificadas como Pirâmide do Sol, Pirâmide da Lua e templo de Quetzalcoatl. O povo de Teotihuacan em seu apogeu tinha como divindade principal o culto a Quetzalcoatl, contudo, politeístas eles adoravam muitos outros deuses. Teotihuacan em seus tempos de glória dominou todo a região, hoje inclusive aponta-se que o declínio da civilização Maia Clássica (aproximadamente por volta de 900 a.C a 900 d.C), pode ter sido por conta desse poder crescente da poderosa cultura do Norte, que desequilibrou o delicado poder que existia entre as cidades estado Maias (As principais Calakmul e Tikal), pois recentemente encontrou-se em uma tumba na cidade de Calakmul, um mural em que o filho de um chefe conhecido de Teotihuacan figura entre os líderes da cidade.
Enfim, Teotihuacan detinha um grande poder, mas foi obliterada por volta de 800 d.C. com a chegada de um novo povo vindo do norte, os Toltecas. Esse povo, falante da lingua nahua, provavelmente conquistou a grandiosa cidade e depois fundou uma capital chamada Tula. Contudo, como aconteceu com os "bárbaros germânicos" na Europa, com os mongóis na Ásia ou ainda com os árabes na persia os Toltecas assimilaram muito da cultura "superior" que Teotihuacan deixaram e continuaram seu legado, adorando aquele estranho Deus, que não exigia sacrifícios e provavelmente contribuiram para aumentar ainda mais o panteão de deuses da região. Os Toltecas permaneceram poderosos até a chegada de um novo povo do norte, falante de uma outra língua semelhante, o nahuatl. Estes "novos bárbaros" traziam consigo seus Deuses e tomaram a terra dos Toltecas para fundar mais tarde a Federação dos Astecas. Absorveram então a cultura deixada pelos predecessores e acrescentaram suas próprias crenças, formando o que os espanhóis mais tarde encontrariam como culto da região.

"Os mitos de criação"


Diz-se, que Ometecuhtli (O senhor) e Omecihuatl (a senhora) o principio criador do universo (Pois "eles" eram um único Deus, contudo masculino e feminino ao mesmo tempo), também chamado de Ometéotl; criou quatro deuses que seriam os senhores do mundo. Eram eles: Xipe Totec (O Tezcatlipoca Roxo, senhor do Leste, que nasceu sem pele), Quetzalcoatl (O Tezcatlipoca Branco, senhor do Oeste, que era ruivo e de olhos azuis) Huitzilopochtli (O Tezcatlipoca Azul, senhor do Sul,) e Tezcatlipoca (Negro, senhor do Norte, que nasceu com garras e dentes de Jaguar). Na mitologia Tolteca, Huitzilopochtli era um Deus menor, sendo o Tezcatlipoca e Quetzalcoatl os dois principais deuses de seu panteão. Eles eram irmãos gemeos e eternos rivais. Xipe Totec era o deus da fertilidade e seu ritual de adoração um dos mais violentos do panteão, o extremo oposto de Quetzalcoatl e por isso, provavelmente eles eram representados como lados opostos dos hemisférios.
Todos recebem o nome de Tezcatlipoca, que significa Espelho Enfumaçado, pois Tezcatlipoca é uma espécie de referencia a o poder oniciente e presente dos Deuses. Sua representação normalmente era a de um homem negro, sem um dos pés, que carregava em seu pescoço um espelho negro que poderia ver todos os pensamentos de todas as pessoas. Ele também era o responsável pela admissão dos mortos no Mictlan, o Hades dos povos da Região e por isso era temido por representar também a morte.
Assim que nasceram Os quatro Deuses resolveram criar um mundo onde pudessem governar. Assim eles desceram até o grande oceano que existia e procuraram pelo monstro da terra, uma terrível criatura que vivia submersa no imenso oceano, seu nome era Cipactli. Para atrair a criatura para a superfície Tezcatlipoca ofereceu o próprio pé como isca. Assim que a besta o fisgou eles o puxaram para cima, mataram o monstro e espalharam seus pedaços pelo mundo. Seus vários olhos se tornaram os lagos e seu sangue os rios. Como conseqüência disso, Tezcatlipoca ficou sem o pé esquerdo. Então os deuses criaram primeiros humanos. Os quatro Deuses disseram a eles para terem filhos e povoarem o mundo. Tezcatlipoca então exigiu que a partir daquele dia, os homens deveriam oferecer sacrifícios rituais como retribuição ao que eles fizeram com o monstro Cipacli. Contudo Quetzalcoatl não exigia esses sacrifícios.
Mas faltava uma coisa. O Sol! O mundo era frio e triste e os deuses perceberam que precisavam fazer alguma coisa para mudar essa situação. Huitzilopochtli fez uma fogueira com seu grande poder e Quetzalcoatl a pegou e jogou no céu. Mas o fogo era muito fraco. Tezcatlipoca, irritado com a incompetência dos irmãos absorveu o fogo no céu e se tornou ele mesmo um Sol. Mas era demasiado forte e inclemente e começou a matar todas as criaturas do mundo. Os únicos que sobreviviam eram os Gigantes que habitavam a terra neste período, chamados de Tzocuiliceque e que comiam pinha, que só davam uma espécie de árvore e que não estavam resistindo ao sol inclemente de Tezcatlipoca. Indignado Quetzalcoalt subiu ao céu e com um golpe de bastão derrubou o irmão no oceano. Furioso pelo fracasso, Tezcatlipoca emergiu das águas na forma de um jaguar gigantesco e devorou os pobres gigantes para saciar sua fúria.
Quetzalcoatl então tomou o lugar do irmão e converteu-se no próprio Sol. Ele irradiava uma luz benévola e durante esse período tudo prosperou. Os homens passaram a se reproduzir e a vida se espalhou pelo mundo. Nessa época, os homens se alimentavam apenas de plantas e viviam felizes. Mas, Tezcatlipoca invejoso com o sucesso do irmão subiu aos céus como Jaguar e numa patada derrubou o irmão na terra. Por causa de sua queda brusca, Quetzalcoatl provocou um imenso furacão que varreu todas as criaturas da terra. Os homens só sobreviveram porque se esconderam num bosque cerrado. Os que não conseguiram alcançar o bosque a tempo tiveram que andar encurvados pelo resto das vidas e se tornaram macacos.
Então um outro Deus, Tlaloc, o deus das chuvas assumiu o lugar de Questzalcoatl e garantiu aos homens o alimento que lhes faria prosperar: o milho. Contudo os homens de sua época se tornaram gananciosos e passaram a não mais respeitar os deuses. Quetzalcoatl, furioso ordenou ao Deus do fogo Xiuhthecuhtli, que destruísse os homens, o que o Deus fez convertendo-se num furioso vulcão que expeliu uma grande quantidade de Lava que cobriria o mundo. Arrependidos os homens rogaram aos deuses para que os poupassem. Tocados, os deuses os transformaram em pássaros e só uns poucos conseguiram sobreviver, pois Quetzalcoalt ordenou que o deus do fogo lhes poupasse a vida.
Huitzilopochtli então ordenou que a deusa das águas, também conhecida como Saia de Esmeraldas, Chalchuiuhcueye que se transformasse no quarto sol. A paz a e a prosperidade novamente reinaram no mundo, contudo Tezcatlipoca novamente não estava contente com o sucesso dos outros. Ele transformou a saia de Chalchuiuhcueye de esmeraldas em jades e esperou até que a Deusa passando por cima do oceano contemplasse sua imagem no espelho d' água. Quando ela viu sua linda saia de brilhantes convertida em pedra fosca, desatou a chorar provocando um imenso dilúvio que afogaria todos os seres vivos do mundo. Vendo os homens se afogarem os deuses piedosos os transformaram em peixes. Mas a chuva foi tão forte que o céu não suportou o seu peso e desabou sobre o mundo destruindo tudo. Envergonhados os quatro grandes deuses se reuniram em Teotihuacan para unir suas forças e criaram quatro grandes homens que os ajudaram a levantar o céu novamente colocando-o em seu lugar. Esses quatro grandes homens se tornaram os quatro pontos cardiais e passaram a sustentar o céu. Mas ainda faltavam duas coisas, os novos homens e o novo sol.
Para criar novos homens eles precisavam de matéria prima, mas não encontravam em lugar algum. Então tiveram a idéia de utilizar os ossos dos gigantes que Tezcatlipoca devotou. Contudo esses ossos estavam no Mictlan, a terra dos mortos, e ninguém queria descer até lá. Tezcatlipoca, que tinha livre acesso ao mundo obscuro se recusou a fazê-lo. Huitzilopochtli não achava a tarefa digna de um guerreiro como ele. Xipe Totec que aquela idéia tinha tudo pra dar errado. Só Quetzalcoatl acreditava que poderia dar certo e ele então resolveu descer sozinho. Ele então foi até o senhor dos mortos, o terrível Mictlantecuhtli e implorou para que ele lhe desse um de seus ossos favoritos de gigante. O deus dos Mortos concordou e entregou o osso. Mas quando Quetzalcoatl já ia a meio caminho de volta para o mundo superior o Deus do Mictlan se arrependeu e começou a perseguí-lo exigindo que devolvesse o osso. Como ele se recusava o deus dos mortos começou a mostrar suas terríveis faces (Pois ele era a morte) e assustado Quetzalcoatl deixou o osso cair, partindo-o em dois. Aproveitando o choque que o Deus dos mortos sofreu ao ver seu precioso osso partido, ele pegou uma das metades e transformando-se em vento fugiu para a segurança de seus irmãos. Então moldou a forma do humano na metade do osso e Xipe Totec lhe deu o sangue da vida. E por isso os homens hoje teriam a metade da estatura de um gigante.
Mas ainda faltava o Sol!

Os quatro irmãos reuniram todos os deuses em Teotihuacan e lhe disseram que era necessário criar um sol que prestasse para o mundo. Como eles não conseguiam se entender decidiram que algum outro deus deveria tomar esse lugar e todos deveriam aceitar a decisão sem questionamento dessa vez, pois esse Sol deveria ser eterno.
Então um deus se apresentou, seu nome era Tecuciztecatl, ele era altivo e forte e todos concordaram que deveria ele ser o Sol. Mas perceberam que também a noite deveria existir a luz e por isso abriram mais uma vaga para o papel da Lua. Quetzalcoatl então questionou quem seria a lua, mas ninguém queria esse papel menor. Todos então se voltaram para Nanahualtizin, um deus pequeno, tímido e cheio de chagas no corpo que era fraco e franzino, mas tinha um coração de ouro e por unanimidade ele foi escolhido para ser a lua.
Durante três dias fizeram várias oferendas e os demais deuses prepararam os corpos dos dois para o grande ritual por qual teria de passar. Enfim, chegado o dia acenderam uma imensa fogueira, tão grande que alcançava até o céu. Então Huitzilopochtli ordenou a Tecuciztecatl que entrasse na fogueira para morrer e renascer como o Sol. O deus tentou quatro vezes, mas todas as vezes que chegava perto do fogo ficava com medo e voltava. Os deuses ficaram tensos. Temerosos de que a fogueira apagasse e perdessem aquela grande chance voltaram-se para Nanahualtizin com olhos suplicantes e ele sem pestanejar, disse que se era essa a vontade de seus irmãos que seja feita. E saltou sem pestanejar no fogo. Envergonhado Tecuciztecatl criou coragem e pulou atrás. Passaram-se quatorze dias até que finalmente o Sol e a Lua surgiram da fogueira e emergiram em direção ao céu. Mas ambos eram igualmente luminosos. Quetzalcoatl percebendo que não era apropriado dois sóis e irritado com a covardia de Tecuciztecatl agarrou um coelho e o atirou contra o deus covarde. O impacto da criatura na bola de fogo o fez reduzir de tamanho e intensidade e o coelho ficaria para sempre devastando a face do Deus com buracos. Mas como os dois apesar de estarem no céu não se moveram, Quetzalcoatl, novamente utilizando sua sagacidade convocou os ventos e os fez soprarem de leste a oeste, para que assim o Sol estivesse sempre em movimento. Mas isso não era suficiente. Pois o Sol precisava de energia constante para continuar queimando. Assim os deuses se sacrificaram, um a um para com seu sangue dar energia ao astro. E para que ele continuasse brilhando os homens deveriam fazer o mesmo.

"A Serpente Emplumada"


Quetzalcoatl em nahuatl, significa Serpente Emplumada. Uma criatura mística, que é associada ao poder benéfico das chuvas e dos ventos. Por isso comumente Quetzalcoatl é também associado ao deus do Vento Ehecatl. O culto a serpente emplumada se espalhou por toda a região. Entre os maias ela era conhecida como Kukulkan ou Gucumatz, que significa exatamente a mesma coisa: "serpente emplumada". Acredita-se que o culto de Quetzalcoatl alcançou a península do Yucatan, onde os Maias viviam por conta da expansão de Teotihuacan e depois por conta da expulsão dos governantes de Tula pelos recém chegados falantes da língua nahuatl. Existe um rei Tolteca, que adotou o nome de Topiltizin-Quetzalcoatl e esse rei é considerado o Quetzalcoatl histórico, aquele que segundo as lendas, prometera voltar um dia para reaver seu trono usurpado. Essa lenda, é bastante difundida quando se vai ensinar sobre a conquista da Federação Asteca, pois é comum utilizar a errônea afirmação de que os Astecas consideravam os espanhóis deuses. A princípio, diante da novidade sim, mas isso não durou muito, já que eles não conheciam nada da cultura meso americana e não tinham nem de longe um comportamento digno de um Deus para os povos nativos. Esse Quetzalcoatl histórico moveu-se para o Yucatan e fundou uma cidade Maia chamada Chichen Itzá. Onde hoje pode ser visto a ruína da grande pirâmide dedicada a Serpente Emplumada, que diz-se, durante os solstícios, é possível enxergar ao longo das escadarias, conforme o sol se movimenta no céu, a sombra de uma imensa serpente.

"Porque Quetzalcoatl é diferente"


Pelo mito da criação que narrei acima é possível perceber que o sacrifício do corpo teve um papel fundamental na cultura daqueles povos. Contudo para cultuar Quetzalcoatl os nativos da região não ofereciam sacrifícios, o culto dele era visto de uma outra forma. Quetzalcoatl estava se transformando numa filosofia de vida, muito mais do que uma simples idolatria. O que era exigido de seus adoradores era uma conduta exemplar e o tributo a ser pago ao deus era o da transformação da matéria pela arte e inteligência do homem. Assim, Quetzalcoatl era um fim, um objetivo que o homem deveria buscar para transcender sua dependência da matéria e atingir um nível acima. Pois ele governava o paraíso destinado aos homens que renunciavam aos prazeres materiais e viviam para a espiritualidade, aqueles que transcendiam, que se libertavam das forças destrutivas do homem, algo muito semelhante aos ensinamentos de Buda e porque não Jesus. Contudo quando da chegada dos espanhóis a região, essa forma de filosofia ainda estava engatinhando. Os Astecas era adoradores de Huitzilopochtli, um deus guerreiro que "exigia" sacrifícios quase diariamente. E a sociedade da federação acreditava que isso era sim necessário para a manutenção do quinto sol e sua própria sobrevivência. Contudo, o culto a Quetzalcoatl era mantido, sem sacrifícios, e ele era um Deus adorado e amado ao invés de temido. Na região onde viviam os Zapotecas (Também chamados de "Povo das nuvens" e que segundo cronistas eram os povos mais belos da região) Quetzalcoatl era muito mais adorado. Durante anos os Astecas tentaram dominá-los, contudo os Zapotecas se mantinham firmes e a sua conquista só se deu após a tomada de Tenochtitlan (capital da federação Asteca, atual Cidade do México) pelos espanhóis.

Quetzalcoatl é, portanto, como Athena, Buda ou Jesus, um deus dedicado a inteligência e a transcendência do homem pelo poder da educação, da mente e do amor a vida.


"Nos próximos capítulos"

Inspirado numa conversa de bar com amigos, vou trazer pra vocês um pouco mais do mundo dos mortos segundo várias tradições por ai a fora. Preparem-se!


Fontes

Peregalli, E. A américa que os Europeus Encontraram. - São Paulo - Atual. 1994.

Hallam, E. O livro de Ouro dos Deuses e Deusas: Mais de 130 divindades e lendas da mitologia mundial. - São Paulo - Ediouro. 2002.

http://members.fortunecity.es/kaildoc/tenochtitlan/5soles.htm



quarta-feira, 21 de abril de 2010

À Ela!


Então começamos...

Bem, com alguns anos de atraso resolvi finalmente ceder a corrente de meu tempo e deixar minha marca na história digital. Pretensioso? Talvez, mas como bom históriador sei que qualquer relato, mesmo que de alguém totalmente insuspeito como eu pode ter alguma relevância daqui há... quem sabe 100 anos?

Devo aqui, no início dessa longa postagem (pois sofro do mal de ser megalomaníaco), expressar as devidas honrarias àquelas que foram as responsáveis por meu animo a iniciar essa empreitada, que espero seja duradoura e prazerosa. Minha esposa Paula, que para minha surpresa rendeu-se aos encantos da internet (algo impensável anos atrás) iniciando seu incrívelmente promissor blog de organização A arte de organizar e nossa grande amiga Édina, que também tem um blog fascinante o Maria Pimenta, que estoicamente ao lado de Antônio (Seu marido) aguentam minhas intermináveis esplanações sobre os mistérios da história em nossas divertidas incursões pelos bares de nossa calorosa cidade (Os quais normalmente ajudamos os garçons a fecharem as portas lá para tantas horas da noite). Também não poderia me esquecer de meu amigo e sócio Jessé Suursoo, que sempre me incentiva nas minhas frustradas aventuras no ramo da literatura (um dia quem sabe escrevo algo que nos traga alguma grana). E claro, a meus "amigos e amigas imaginários(as)", Ricardo Dias, Harumi Odagiri e Paulo Koto, a quem conheço há quase 10 anos e nunca os vi pessoalmente. Que os deuses salvem a Internet.

Mas chega de delongas. Vamos ao que interessa, o Blog!

Em primeiro lugar gostaria de explicar o nome. Ateneu, hoje em nossa amada lingua portuguesa é comumente associado a escola. Deveras, é isso mesmo. E a origem desse nome remonta a Roma. No ano 135 d.C. o imperador romano Adriano criou os fundamentos daquilo que daria origem aos centros de saber que hoje conhecemos como escolas, universidades etc. E ele deu o sugestivo nome ao lugar de "Atheneum", que significa nada mais nada menos do que "A casa de Athena". Nesse lugar, os estudiosos poderiam escrever, ler e discutir idéias em público, recenbendo críticas ou elogios e normalmente eram recompensados por isso. Lembra um blog não?

Mas qual é a razão de se escrever esse blog? Bem, como disse, em nossas conversas de botequim, percebi que há sim um real interesse pelo passado, histórico ou mitológico e que nem todos tem paciência ou vontade ou mesmo tempo para buscar. Portanto, coisas muito interessantes que a academia acaba descobrindo se restringe a esse circulo de pesquisadores e o público interessado fica excluído de saber, algo tão importante para nós seres humanos. Minha intenção é tentar trazer um pouco disso que sei e espalhar para o maior número de pessoas, para que assim essas coisas interessantes de nosso passado possam se disseminar aos quatro ventos, alimentando uma conversa mais rica. Afinal, papo cabeça pode sim ser tão interessante quanto discutir futebol, ou muito mais interessante do que discutir a vida de alguém que você nem conhece e nem gostaria de conhecer, mas foi obrigado por força da caixa mágica que habita sua casa e o obriga a prestar tributo todos os dias quando passa por ela.

Assim Pessoal aqui vou eu! Encher a cabecinha de vocês com essas coisas de gente morta e ocupar o tempo de vocês com o passado, para quem sabe despertar em vocês a centelha do reconhecimento de nossas ações no presente.

E para minha primeira postagem, como não poderia deixar de ser, vou prestar um tributo à Ela, provavelmente a mais conhecida, admirada e cultuada deusa grega do mundo antigo, patrona desse blog e de meu interesse pela ciência. Aquela cuja admiração resistiu ao tempo e a perseguição religiosa e que mesmo em tempos de domínio rigoroso do cristianismo, conseguiu inspirar os artistas a enfrentar o perigo da fogueira. E que me enviou um sinal através de uma insuspeita visita a banca de jornal. Como não sou bobo de não atender o chamando dos deuses quando solicitado ai vou eu!


"Athena"

Quando destronou seu pai, Chronos o titã devorador de filhos, Zeus foi informado pelo oráculo, o lugar onde o futuro era revelado, que assim como ocorrera com seu pai, ele também seria destronado por seus filhos. Primeiro viria a jovem de olhos brilhantes cuja inteligência se equivaleria a dele. Depois o jovem que governaria Deuses e Homens. Apavorado, Zeus virou-se para sua primeira esposa, a titã Métis, a mais sábia entre Deuses e homens e elaborou um plano para que aquela tragédia descrita pelo oráculo não recaísse sobre ele. Ele propôs um jogo com a esposa, ela deveria ficar bem pequenina. Obedecendo ao marido a pobre Métis acabou engolida por Zeus, que julgou ai ter posto um fim no seus problemas. Contudo nem os Deuses estão livres dos ditames do destino.
Um dia, padecendo de horríveis dores de cabeça, Zeus procurou um de seus filhos, o Coxo, feio mas valoroso Hefestos, deus dos ferreiros e do fogo, e pediu que ele lhe partisse a cabeça para aliviar aquela dor. A princípio o filho hesitou. Mas como quando Zeus quer algo, Zeus consegue ele cumpriu seu designio. Imediatamente da fenda, saltou uma jovem Deusa completamente vestida e adulta. Portando um elmo de guerra e reluzindo o mundo com seus brilhantes olhos acinzentados que lembravam os de uma coruja. Assim nasceu Athênê, para nós Athena.

O que difere Athena de outras deusas do mundo antigo é sua decisão de manter-se casta. Não por um motivo qualquer, mas com a intenção clara de não pretencer tão somente a esfera feminina da sociedade. Athena é uma personagem ambigua. Ao mesmo tempo em que é a deusa da Guerra Justa, ou seja, daquilo que a guerra serve: levar a paz; o oposto de seu irmão e eterno rival Ares. É também a deusa dos trabalhos elaborados, do saber, da justiça, etc. Ela é admirada tanto por homens quanto por mulheres. E essa ambiguidade é uma metáfora para demonstrar a transformação que a sociedade antiga estava passando. Antes, a divindidade era associada a maternidade e o poder da mulher era muito grande. Contudo, quando os homens passaram a dominar as esferas de poder, os deuses deixaram de ser dinvindades atreladas a fertilidade e passaram a se tornar deuses guerreiros e violentos. Athena é a representação dessa virada de mesa. Os homens a idolatram por ser corajosa e honrada (valores que tinham como os mais altos em sua sociedade) e as mulheres admiravam sua benevolência e competência em tudo o que fazia. Mas por trás disso existia a questão da castidade. Afinal, Athena era casta pois se não o fosse seria apenas uma "mulher comum", que poderia ser possuída por qualquer homem e isso era um sinal de fraqueza. Assim, nota-se que mesmo por trás desse exemplo incrível de feminilidade, que inspirará as mulheres milênios mais tarde a buscar seu lugar de direito, há o estigma do machismo que começa a impor-se sobre as mulheres na antiguidade.

"A queridinha do Papai"

Há um fato curioso na história dessa deusa. Zeus, apesar dos dizeres do oráculo, tem para com Athena o amor incondicional de um pai babão. Tudo o que Athena quiser ela conseguirá do velho pai. Mas não como uma menina mimada e talvez seja aqui um dos exemplos de como o mito ajudava na educação das crianças na antiguidade. Athena era a filha que todo pai gostaria de ter. Era independente, valente, obediente, competente, esforçada, leal e acima de tudo virgem. Qual pai na Terra não gostaria de ter uma filha assim?
Contudo Athena era uma irmã bastante encrenqueira. Ares que o diga. Há diversos relatos na Teogonia e na Iliada em que os dois irmãos se enfrentam, inclusive saem no braço, principalmente quando estão disfarçados no campo de batalha, coisa que gostavam de fazer com frequência. Na Iliada, Athena garante a um herói, Diomedes o poder de ver os deuses em sua real forma no campo de batalha e o ajuda a tirar Ares da luta, desviando a flecha do deus e fazendo com que a do mortal o atinja em cheio na barriga. Hera, a mãe de Ares o leva dali. Furioso o deus vai até Zeus, que se mantém neutro na questão (Athena luta pelos gregos, Ares pelos Troianos) e reclama:

"Pai Zeus, vossa indignação não fará cessar atos tão violentos? Continuaremos, nós deuses, a sofrer tão cruelmente nas mãos uns dos outros quando auxiliamos os homens? Estamos todos em luta porque vós sois pai daquela tola e violenta jovem, cuja mente está sempre voltada para atos culposos. Todos os outros deuses do Olimpo são obedientes e sujeitos a Vós, cada um de nós; mas a ela Vós não ofereceis nenhum freio, nem em palavras nem em ações; ao contrário, ela faz o que bem entende... Incentivou Diomedes, filho de Tideu, a ferir-me, embora eu seja um deus, e só escapei graças a meus velozes pés, ou estaria agora entre as pilhas de mortos".

Como não poderia deixar de ser. Zeus deu um sermão em Ares. Dizendo que era ele que costumava arrumar confusão com os outros deuses e que deveria por-se em seu lugar. Furioso o deus da guerra se curou e voltou ao conflito, com a intenção explicita de se vingar da irmã. Já chegou atirando sua lança contra Athena, que defendeu-se com o aegis, o escudo de seu pai, indestrutível contra tudo e todos; e contra atacou com uma pedrada no pescoço do irmão, proferindo a seguir:
"Tolo, você ainda não aprendeu quão mais poderosa do que você eu consigo ser?"


"Athena Sufragium"

Falar sobre Athena levaria várias e várias páginas. Contudo, sou informado por minha esposa agora que um Blog não deve ser TÃO grande assim. Portanto, terei de restringir meu impulso e encurtar a história. Athena apesar de poderosa e justa era implacável, como deveria se esperar da deusa que representasse a justiça. Nem sempre seus julgamentos podem ser considerados os mais justos. Normalmente, quando versavam sobre um mortal e um Deus, o castigo maior era sempre para o mortal. Medusa, era uma belíssima jovem, que foi seduzida por Poseidon, deus dos mares e tio de Athena, os dois mantinham uma relação de rivalidade, de menor escala, normalmente disputando o patronato das cidades gregas. Afinal os Gregos eram (e segundo um amigo grego) são muito ligados ao mar e por isso o Deus dos Mares era tão temído quanto Athena era amada. O azar de Medusa foi deixar-se seduzir no templo de Athena, o que era um pecado para qualquer mortal. Não se podia nem dar a luz ou morrer no templo de um deus, quanto mais ficar de fricote. O resultado nós já sabemos. A deusa a transformou num monstro e não contente, depois ajudou o herói Perseu a decaptá-la. Em alguns casos a sua implacável justiça não se restringia apenas ao algoz. Como no caso da queda de Troia, quando o herói Ajax invadiu o templo de Athena na cidade e estuprou a princesa Cassandra que estava agarrada a imagem da Deusa. Nenhum grego o impediu e por isso Athena (Muito mais furiosa por terem violado o templo do que a pobre mulher) atendeu as súplicas da princesa e pediu a Posseidon que castigasse todos os gregos que estavam ali. Ajax enlouqueceu e matou toda sua tripulação e os outros heróis ficaram vagando pelo mar mediterrâneo por décadas. Entre eles Ulisses, por quem Athena nutria uma afeição pouco habitual e é o herói da Odisséia. Pois nele ela enxergava suas próprias características. A inteligência e a astúcia para vencer a brutalidade e os perígos.



"Todos temos segredos"

O barato da mitologia é que os Deuses são uma forma de representação dos valores e vícios humanos. Com a austera Athena não poderia ser diferente. Apesar de todas suas qualidades, há um evento pouco esclarecido na mitologia acerca dessa deusa. Ela mesmo sendo virgem, teve um filho. (Qualquer semelhança com outra virgem não é mera coincidência, afinal, a cultura se espalha e se molda de acordo com as situações da sociedade que a recebe.) Erictheon, era o nome do rebento e a história para seu nascimento mais aceita é a seguinte: Hefesto era esposo de Afrodite. O casamento dos dois fora uma piada de mau gosto de Zeus para com a orgulhosa Deusa da Beleza. Forçada a se casar com o mais feio dos deuses. Claro, Afrodite não estava nem um pouco interessada em fidelidade e traía o pobre descaradamente com quem ela bem entendesse. E o principal amante era Ares. Hefesto descobriu, fez uma rede mágica tão fina quanto fios de cabelo e tão resistente quanto aço e esperou que os amantes se entregassem ao sexo para aprisioná-los e depois mostrar a pouca vergonha pra todos os demais seres do Olimpo, a morada dos deuses, que não é o paraíso, para os gregos o paraíso são os Campos Elíseos. Então, arrasado pela vergonha ele foi atrás de Athena, querendo desposá-la, pois devia acreditar que ela não o trairia. Virgem convicta ela resistiu violentamente aos gracejos do deus e o semem dele caiu na terra. Envergonhada, sabe-se lá por que motivo, Athena cobriu a terra e dela nasceu Erictheon. Ela então pegou a criança. Colocou em uma caixa e levou para uma familia de Athenas. Mas disse que ninguém poderia ver o que tinha dentro. Claro que desobedeceram! E como punição ela fez com que os curiosos se matassem. Então levou o filho adotivo para o Parthenon, ("O templo da Virgem" do qual vou falar sobre em postagens futuras) e o criou lá até que se tornasse um jovem forte e desafiasse o rei da cidade, vencendo-o e coroando-se assim o rei de Athenas (Para os gregos Athinai, que significa Cidade de Athena).



Enfim!

UFA!
Espero que não tenha sido demasiado chato ler tudo isso. Tinha muito mais. Contudo, não posso abusar da paciência de vocês.
No próximo post vamos dar um salto nos hemisférios e falar de outra figura importante da mitologia e da história: "Quetzalcoatl, o deus cultuado do México ao Peru"


Fontes
Revista História Viva: Deuses da Mitologia 5: Atena.
Bulfinch,T. O Livro de Ouro da Mitologia. - Ediouro
Victoria, L. A. P. Dicionário Básico de Mitologia - Ediouro