segunda-feira, 21 de junho de 2010

Malintzin!


Opa! Falei que seria mais rápido desta vez!
Incautos leitores, hoje vou falar sobre uma personagem extremamente controversa da história da humanidade. Uma figura que pela sua importância crucial nos eventos que mudariam o mundo ganhou status de lenda. Contudo as opiniões sobre ela divergem, mesmo no meio acadêmico, que deveria ser, digamos assim "imparcial". Embora seja peça chave do que ajudou a construir os fatos que a envolvem são obscuros, notadamente por sua condição feminina e principalmente pelo desenrolar dos acontecimentos que se seguiriam nos séculos vindouros. Seu nome é considerado um palavrão no México, embora ela seja adorada por tantos outros conterrâneos. Alias, falar em nome para essa criatura chega a ser uma piada de mal gosto. Justo ela, que carregou tantos ao longo da vida. Vou fazer uma brincadeira com vocês. Leiam a postagem, tirem suas conclusões e a condenem ou a absolvam se assim desejarem.
Então vamos contar a história dessa mulher fantástica chamada...

"Era uma vez a Princesa Malinali..."

O que se sabe sobre a infância dela é o que nos foi relatado pelos cronistas espanhóis e o que sobreviveu dos relatos dos povos nativos após a conquista. Ou seja, um relato muito pouco confiável. Ainda assim, é o único que temos e nesse caso, não da para exigir demais. Diz-se que ela nasceu no ano Ce-Malinali (Calendário Asteca, que corresponde a 1496 de nosso calendário cristão). Filha de um nobre que servia ao Império Asteca(Embora alguns historiadores prefiram o termo Federação Asteca) na região de Coatzalcoalcos, na fronteira sul com as terras maias. Eles eram parte da elite do povo Nahua, falantes do Nahuatl, a língua franca do território controlado pelos astecas. A pequena princesinha ganhou esse nome, Malinali, por conta de ter nascido naquele dia e naquele ano. Explico. Os Astecas não nomeavam seus filhos com o nome definitivo assim que nasciam. Quando nascia uma criança, depois de alguns dias, ela era levada a um sacerdote responsável pelo livro dos nomes. Ele fazia cálculos baseados no que tinha a mão, levava em consideração o dia, a hora e o ano do nascimento e dava um nome a criança, que ela carregaria até atingir certa idade, quando ganharia o nome definitivo. Muitas vezes, o nome de "batismo" acabava ficando, o que não foi exatamente o caso de nossa pequena princesa. A pequena princesa teve a educação que as mulheres nobres astecas podiam ter, foi enviada ao Calmecac (A escola de filosofia e religião dos astecas) e lá aprendeu aquilo que as meninas tinham de aprender, ou seja, respeitar o marido, temer os deuses e cuidar da casa. Escrever, ler, aprender a tocar instrumentos ou até mesmo lutar era reservado aos homens. A sociedade asteca não era muito diferente da européia no que tange a direitos femininos no final do século XV e começo do século XVI. Contudo, vê-se que o pai de Malinali se preocupava em dar instrução a sua única filha, o que já era bastante raro. A menina também deveria ter demonstrado uma grande inteligência e desenvoltura, pois essa característica marcante a acompanharia pelo resto da vida.
Tudo ia bem para a pequena princesa, seu destino estava traçado, afinal, quando nascera o pai enterrara seu cordão umbilical ao lado do fogão de sua casa, como era o costume para as meninas (Se fosse menino o cordão umbilical seria enterrado num campo de batalha) para que elas nunca se afastassem do lar. Ela também ganhara uma pequena vassoura e uma roca como primeiro presente, como era o costume. Alias o costume era tudo naquela sociedade. Acontece que o costume não os preparou para o trágico evento que viria a se abater sobre a nobre familia nahua. O pai de Malinali adoeceu terrívelmente. Nenhum curandeiro conseguia curá-lo e por fim, ela ficou orfã. Como era de se esperar, sua mãe logo se casou novamente e não tardou para que seu padastro quisesse ter seus próprios filhos. Para azar de Malinali, nasceu um filho varão e ela passou a ser um empecílio aos desejos do padastro. Afinal, a nobreza era de seu pai e, portanto, tudo pertencia a ela, sua única filha. O resultado não poderia ser mais trágico para a jovem princesa. Entregue ao sacrifício ritual? Impossível, ela era nobre. Um casamento as pressas? Impossível, ela era jovem demais. Restou uma alternativa, que não seria viável, não fosse a proximidade com a fronteira. Malinali foi vendida pela própria mãe aos mercadores escravos maias da região de Tabasco, alguns sacos de milho foram o pagamento. Num dia, ela era uma princesa Asteca. Estava no topo da hierarquia social de sua sociedade, acostumada a olhar o mundo de cima. Agora, ela era uma escrava. Do céu ao inferno, ou no caso dela, do Tlalocan ao Mictlan e um piscar de olhos. E onde estavam os seus para ajudá-la? Onde estava Quetzalcoatl que não impediu aquela crueldade?


"... da escrava imprestável à Auianime Malinche."

A parte mais obscura da vida de nossa ex-princesa Malinali, agora conhecida pelos maias pelo nome de Malinche, começa assim que ela foi vendida até o encontro com os Europeus. Ela foi vendida antes de entrar na puberdade, provavelmente por volta dos 7 a 9 anos. Da para imaginar que a vida para ela perdeu completamente o sentido. Alguém que vivera no luxo entre a nobreza, que tinha tudo o que quisesse comer e vestir, ter de se contentar com trapos sujos, andar descalça, comer o que restasse ou o que lhe dessem. Certamente a menina penou, mas como as crianças se adaptam rápido as circunstancias, ela sobreviveu. Talvez, vocês não saibam, mas o padrão de beleza maia era bastante peculiar. Quando as crianças nasciam, os pais amarravam pranchas de madeira na cabeça dos filhos de modo que o crânio da criança se desenvolvesse alongado, com a testa achatada. Para as meninas, colocava-se uma bola pendurada por um fio a frente dos olhos de modo que elas se tornassem... er... vesgas. Era o que eles consideravam belo. Malinche não tinha essas características, ela era Nahua, ela tinha os traços dos povos do norte. Ela era uma menina feia para os maias. Menina feia e escrava molenga. Seus primeiros donos não gostaram dela e a colocaram de volta ao mercado de escravos para ser novamente vendida. Isso era um problema. Segundo a lei, quando um escravo era vendido duas vezes,   a terceira poderia levá-lo ao sacrifício ritual. Antes disso não. Acontece que o novo comprador tinha outros planos. Levou a jovem menina feia e a tratou muito bem. A alimentou, cuidou dela melhor do que das outras escravas. O motivo era simples. Malinche cresceria, e se tornaria uma Auianime rara naquelas terras, ou seja, uma prostituta exótica. Uma mulher do povo dominante, que seria dominada pelos homens maias. Acontece que por ser inteligênte, educada, Malinche tirou proveito daquela situação. Aprendeu o maia chontal (lingua de seus captores), conseguiu notícias de tudo o que acontecia pelo império, ou seja, era uma mulher informada. Seu destino provavelmente era ser a Auianime de luxo dos maias até que estivesse velha demais para que a quisessem ou que alguém a quisessem demais e a comprasse para si. Mas o destino, bom o destino dela era como uma tempestade caribenha. Quando menos se espera se torna um furacão incontrolável.

Doña Marina encontra Quetzalcoatl.

Um dia os homens da cidade se armaram e foram para a guerra. Não que isso fosse novidade. Era a coisa mais comum do mundo. Ir para a guerra, trazer uns cativos, sacrificá-los nos altares das pirâmides para aplacar a sede de sangue infinita dos deuses. Contudo, quando eles voltaram as mulheres perceberam que algo estava errado. Não havia cativos, os homens estavam massacrados, sujos e muito feridos. O cacique reuniu provisões e ordenou que 20 jovens mulheres escravas fossem reunidas. Malinche estava entre elas. Era de se esperar que em seus corações, essas vinte coitadas estivessem pensando que chegara a hora de enfrentar a faca de obsidiana, rasgando seu ventre e a mão hábil do sacerdote penetrando sua carne para arrancar seu coração ainda pulsante do seio e exibi-lo a multidão extasiada. Quem seriam os vencedores? Astecas? Não, não era assim que costumavam proceder.
Foram então elas encaminhadas junto com a comida para o litoral, onde seus olhos não puderam acreditar no que viam. No grande oceano, flutuavam templos alados (onze ao todo). Por toda a praia, estranhas criaturas, que se pareciam com homens, mas que carregavam estranhas couraças protegendo seus corpos, armas reluzentes que destroçavam a mata ao redor numa fúria incontrolável, cachorros gigantescos (pois para os astecas e maias, cachorros só os pelados, que existiam ali e que só serviam para uma única coisa... comida!) capazes de devorar um homem e finalmente aquela coisa horrenda que parecia um veado gigante, mas que de suas costas erguia uma outra criatura que era metade homem. Que terríveis feras do Mictlan eram aquelas? E, por todos os deuses juntos como FEDIAM!
Os maias deixaram as mulheres lá na praia e correram pro mato. Os espanhóis as arrebanharam e as levaram para um cercado que parecia uma cozinha. Pediram para que elas cuidassem da comida. A idéia de que eram criaturas logo caiu por terra, pois perceberam que eram homens, os homens mais feios que já viram, talvez exceto por aquele com cabelos claros que adorava aquelas bizarras feras gigantes, que só se interessavam em comer grama. Depois o líder deles fez um discurso, montado numa das feras furiosas. E Malinche devia estar prestando bastante atenção, pois aquele só poderia ser Quetzalcoatl, o deus-homem, que prometera voltar do mar oriental para reclamar seu reino no ano Um Junco. Exatamente aquele ano em que estavam.
Passado algum tempo os espanhóis resolveram encontrar outra serventia para as mulheres maias. Mas eles como bons cristãos não poderiam se deitar com pagãs. Então batizaram todas elas e foi ai que Malinche ganhou seu novo nome, o nome cristão de Marina.
Ela devia se destacar das outras escravas maia. Pois os espanhóis deviam achar o padrão de beleza maia tão bizarro quanto os astecas. E certamente, o mulherengo Hernan Cortez cresceu os olhos para cima daquela índia peculiar. Mas não foi com ela que ele ficou aquela noite. Malinche... er... Marina, foi entregue a Puertocarrero, um nobre espanhol (nobre de verdade, com linhagem e tudo).
Foi então que a expedição de Cortez encontrou-se com um novo membro. Um espanhol, cujo navio naufragara anos antes nas costas do Yucatan e que vivera entre os maias. Geronimo de Aguilar aprenderam o Maia Chontal e Cortez viu ali a grande chance de sua vida. A chance de por seu plano em prática. A verdade é que Velasquez, governador de Cuba ordenara a ele para que liderasse uma expedição na costa do continente para localizar náufragos espanhóis para resgatá-los e levá-los de volta a ilha. Mas Cortez tinha outros planos. Com um espanhol que pudesse traduzir o que os índios falavam, ele poderia conquistá-los para a coroa do imperador Carlos e convertê-los a fé cristã, e quem sabe, achar um El dorado da vida. Acontece que Aguilar lhe falou sobre o Império Asteca, sobre as histórias que ouvira da capital destes e isso despertou em Cortez um desejo incontrolável de chegar até lá. Mas havia um problema, Aguilar falava maia chontal e não Nahautl. Mas para os espanhóis, índios eram todos iguais e portanto deveriam falar todos a mesma língua, certo?

Cortes fundou a primeira cidade no continente (Oficialmente), Vera Cruz. Foi aclamado por unanimidade como prefeito de tal empreitada e depois seguiu com seu séquito de uma centena de espanhóis para o norte, até a cidade dos Cempoalas, um tributário dos Astecas. Foram recebidos com surpresa pelos Cempoalas, curiosos com aqueles estranhos seres vindos do leste. O Cacique dos Cempoalas veio ao encontro dos espanhóis e tudo foi uma grande confusão. Eles balançavam incensos na frente dos conquistadores e falavam aquela estranha língua que ninguém entendia. Aguilar alertara o capitão Cortez que não falava aquela língua e os ânimos ficaram tensos, até que uma das escravas se adiantou e traduziu as palavras do Cacique apra Aguilar. Este por sua vez traduziu o que ela falou para Cortez. A escrava em questão era Marina. Que falava Nahuatl e maia.
A sim, o incenso era para suportar o cheiro horrível dos espanhóis....
Não é preciso dizer que logo em seguida, Cortez mandou Puertocarrero de volta a Espanha para avisar da descoberta que fizera. Adivinha quem passaria a dividir sua esteira a partir de então?
Enquanto estavam em Cempoala, uma visita inesperada acelerou a marcha para a capital asteca. Coletores de impostos do Uey Tlatoani (Venerável Porta voz) Motecuhzoma Xocoyotzin vieram buscar os tributos de Cempoala (Na realidade, vieram ver o que eram aqueles homens estranhos vindos do leste e que diziam serem Deuses). Exigiram o de praxe, comida, riqueza e xochimiquis, pessoas para serem sacrificadas aos deuses deles. Cortez percebeu que era sua chance de matar dois coelhos com uma só cajadada. Por meio de Marina, ele convenceu o cacique Cempoala a prender os coletores de impostos. Na calada da noite, ele, Marina e Aguilar foram até os coletores de impostos e ele os libertou, mandando uma mensagem ao Tlatoani. Ele, Quetzalcoatl Cortez, era seu aliado e só estava se certificando o quão pérfido era aquele cacique dos Cempoalas. No dia seguinte quando o cacique descobriu que eles fugiram, Cortez disse a ele que deveria ter sido uma fuga facilitada por espiões e que ele deveria tomar cuidado.
Montezuma mandou muitos presentes a Cortez, muita plumaceria, jarros, finas roupas de algodão e ouro. Obviamente, os espanhóis só deram atenção ao ouro, mas desdenharam do presente na frente do Cacique, dizendo que não seriam comprados por aquele suborno barato. Depois, agradeceram aos Astecas e disseram que eles iriam pessoalmente agradecer ao Tlatoani tão valioso presente. Na realidade Montezuma queria que os espanhóis voltassem para casa com os presentes, mas as peças em ouro só atiçaram ainda mais a doença que os espanhóis tinham. Segundo eles, os espanhóis sofriam de uma doença grave em seus corações, que só poderia ser amenizada com muito ouro.

Acontece que sem Doña Marina seria impossível ir a Tenochtitlan. Nas palavras de Cortez: "Depois de Deus, a conquista do México se deve a Doña Marina". Ela logo aprendeu a falar espanhol e a participação de Aguilar se tornou praticamente desnecessária, embora ele continuasse no séquito de Cortez. Por onde passava, era ela quem fazia as honrarias, era a voz dela que os índios escutavam, e como era o costume era o nome dela que eles consideravam como sendo o interlocutor. Portanto, era a ela quem os índios se dirigiam. Cortez passou a ser conhecido por Malinche, Capitão Malinche ou ainda Malinche Cortez. Doña Marina conseguiu apoio de vários povos descontentes com o domínio Asteca e quando eles chegaram a Tenochtitlan, o improvável grupo de cento e poucos espanhóis agora era acrescido de milhares de aliados índios. Ainda assim, poderiam ter sido esmagados pelos exércitos Mexicas (O povo mais forte da federação asteca).

Os espanhóis ficaram maravilhados com Tenochtitlan. Disseram que não havia no mundo cidade mais bela. Que Londres, Madri ou Lisboa não se comparavam. Que nem mesmo Constantinopla (Atual Istambul) chegava a seus pés. Marina também deve ter ficado deslumbrada. O encontro com o Uey Tlatoani, foi cheio de tensão. Sem coragem de olhar para o Imperador, Marina usando todo o seu nahuatl nobre, cheio de reverencias e pomposidade apresentou o conquistador Cortez à Montezuma. Como era de praxe, Montezuma, considerado um semi deus não demonstrou coisa alguma. Cortez, como bom espanhol se aproximou para abraçar o Tlatoani e uma comoção generalizada irrompeu o local. Marina logo o interpelou, dizendo que o Tlatoani não poderia ser olhado diretamente, quanto mais tocado.
Acontece que isso surtiu um efeito devastador na postura de Montezuma. O Tlatoani, acostumado com tudo ali, escrito e certo, achou que aquela postura do espanhol só poderia ser de um Deus. Aquele jeito arrogante e desleixado (Que poderia muito bem ter sido confundido com o de um bárbaro também!) só poderia ser coisa dos deuses. Montezuma foi um tolo, e Malinche foi a língua que o iludiu. Dai para os espanhóis tomarem a cidade, o poder e o império, foi um pulo.

"La Malinche, La Lengua y La Chingada!"

 Ok. Ela foi a intérprete da conquista, mas e dai?
Bem, os próprios espanhóis confessam que a conquista do México seria impossível sem a ajuda de Doña Marina. Malinche, que depois seria chamada pelos próprios índios de Malintzin (O sufixo Tzin em nahuatl significa nobreza, mas o nome em si não faz sentido, portanto Malintzin é muito mais uma forma de desprezo do que de respeito), teve um papel muito mais relevante do que simplesmente traduzir. Os espanhóis, apesar da menção honrosa a seu papel pouco falam dela, contudo nos momentos decisivos, como na fuga durante a Noche Triste (Quando uma cidade enfurecida caçou e matou metade dos espanhóis pelas ruas de Tenochtitlan) em que todos se alegraram por vê-la salva e junto deles, ou por ser progenitora dos primeiros cristãos ilustres da Nova Hispania (Ela teve dois filhos com Cortez, um menino e uma menina). A maioria dos relatos contudo vem dos índios. Nos códices (Livros meso americanos que se dobravam em forma de leques) que sobreviveram ao tempo e a inquisição e portanto de veracidade duvidosa pois os espanhóis jamais deixariam passar algo que difamasse pessoa tão importante para a causa deles, ela é retratada com a verdadeira figura da conquista. Não há um único desenho em que ela não esteja na postura ativa, de convencer, instruir e até lutar pela causa dos espanhóis. Cortez sempre aprece a seu lado, apenas observando. Se levarmos isso em consideração, Malintzin não apenas traduziu as palavras, mas também o costume, as crenças, a forma como os índios guerreavam, as armas e as táticas de guerra. Ela delatou a tentativa de massacre na cidade de Cholula,quando os índios pretendiam matar os espanhóis, mas que foram surpreendidos por estes, graças a astúcia desta menina de apenas 19 anos. Em alguns códices Malintzin aparece segurando um escudo e instando os homens a luta. Para os índios ela é a responsável pelo colapso de sua civilização e por isso foi profundamente odiada.
Seu nome La Malinche, é hoje um palavrão no México. Na tentativa de reafirmar a identidade nacional os mexicanos do século XIX, desmistificaram as figuras de Malinche e Cortez, transformando-os em figuras centrais do colonialismo. Hoje, no México, quando se quer referir-se pejorativamente a alguém que prefere coisas estrangeiras a nacionais, se chama de Malinchista. Os mexicanos se referem a Malintzin como "La Chingada".
Contudo, no século XX, as coisas começaram a mudar para Malinche. As feministas começaram a olhar para ela, não como um instrumento de colonização, mas como uma mulher que enfrentou os ditames de sua sociedade, e valendo-se de sua inteligência galgou posições na hierarquia e tornou-se um dos principais personagens da história do México. Os historiadores por outro lado, olham para ela como a progenitora das nações latino americanas. Aquela que, assim como Pocachontas no norte e as índias Tupi-Guaranis no sul, aceitaram a chegada do homem branco como uma mudança inquestionável e que para evitar que seu povo fosse sumariamente massacrado, utilizaram-se de subterfúgios para convencê-los a aliar-se ou render-se ao inevitável. Muito se discute como teria sido a conquista do México caso ela não tivesse existido. Mais violenta e demorada com certeza. Ou teriam os índios vencido essa guerra? Com sua intervenção, Malintzin conseguiu, mesmo que por pouco tempo, impedir a completa destruição da cultura de seu povo? Ou simplesmente acelerou um processo de degradação que poderia durar anos ou simplesmente nunca acontecer? Alias... seu povo. Um termo ambíguo e extremamente perigoso, se levarmos em conta que foi seu povo que a vendeu como escrava quando criança, que a obrigou a se prostituir quando adolescente e que a deu como espólio de guerra aos espanhóis. Difícil acreditar que depois de tudo isso ela ainda tivesse um sentimento de fraternidade para com "seu povo", embora suas ações, levem a crer, hoje, que sim.

Há um fato curioso após a conquista. Diz-se que tempos depois, em sua casa nas terras que Cortez lhe dera ela recebeu a visita de uma velha e um jovem índio. Ninguém menos que sua mãe e o irmão! Alguém se arrisca a dizer o que ela fez? Não? Diz-se que os acolheu muito bem. Surpreendente não?

Apesar do longo e duradouro "romance" entre Malintzin e Cortez, os dois nunca se "casaram" propriamente. Motivo, Cortez já era casado com uma espanhola, parente do governador Velasquez. A mulher morreu em circunstâncias suspeitas pouco antes de Cortez ser obrigado a voltar a Espanha pelo Imperador, que não gostava nada da popularidade que ele tinha na América. Cortez levou o filho de Malintzin com ele, Martin Cortez, deixando apenas a menina com ela. Malintzin nunca mais veria o filho. Depois disso, ela se casou com um espanhol, mas a felicidade dela não durou muito. Não se sabe como, nem onde, nem porque, mas acredita-se que Malintzin morreu aos 25 anos.


Malinali, Malinche, Marina ou Malintzin...

Agora é com vocês. O que acham dessa personagem fantástica? Traidora ou salvadora? Pesam contra ela o fato de ter sido responsável direta pela queda de um dos mais gloriosos impérios que o Ocidente já viu. Mas também a  construção de toda uma nova civilização. Seja como for, essa índia inteligente e pró-ativa, jamais será esquecida.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Uma Ode a origem.

Meu amigos sabem, eu não sou fã de futebol.
Nunca fui. Na verdade eu padeci, em minha infância e adolescência, do mal de ser um verdadeiro perna de pau. Sempre fui o último a ser escolhido na hora de tirar o time. E sempre percebi o descontentamento de meus amigos ao me ter jogando no time deles.
Por essas e outras esse vírus patriótico que afeta os brasileiros a cada quatro anos não costuma me atingir. De qualquer maneira, não poderia deixar passar a oportunidade de aproveitar a interessante mistura desse caldeirão de culturas que é a Copa do Mundo.
E como não poderia deixar de ser, por essa copa já ser especial só pelo lugar em que está ocorrendo, resolvi dedicar essa quinta postagem a cultura da África do Sul, essa terra tão cheia de contrastes e peculiaridades.

As árvores somos...

Todos, que estiveram na escola nos últimos 60 anos, provavelmente já ouviram aquela velha historinha manjada de que o homem veio do macaco e que esse macaco habitava a África. Portanto, o homem é Africano. Bom, vou começar desmentindo essa idéia estapafúrdia. 

COMO ASSIM!?

Em primeiro lugar, não viemos de macaco nenhum. O que entendemos por macacos (chipanzés, gorilas, orangotangos, macacos pregos e micos) são parentes nossos, mas não nossos antepassados. Portanto, todos nós, homens e macacos viemos de um ancestral comum, que em algum lugar lá a milhões de anos atrás por algum motivo que ainda não descobrimos, mas que certamente foi alguma catástrofe climática que nosso terno planetinha assassino resolveu provocar, se separou em diferentes famílias de primatas que daria origem a toda essa família de simpáticos seres sociais da qual nós e eles fazemos parte.
Ok, mas o que isso tem a ver com Copa? África do Sul? Bom, os mais antigos sítios arqueológicos do mundo estão lá. Foram encontrados alguns australopitecus (Essa simpática figura ai do lado), indícios de que nossos ancestrais já vagavam por grande parte do sul do continente. 
Levaria cerca de 1.000.000 (um milhão de anos) do surgimento do primeiro primata da linhagem evolutiva do gênero Homo (Quando nossos ancestrais se separaram dos ancestrais do macaco) até o surgimento de nossa espécie, o Homo sapiens sapiens. Mas claro, isso para quem acredita no senhor Darwin, o que obviamente, é meu caso =).
Depois que nossos ancestrais começaram a ficar mais altos e independentes, eles se espalharam pelo mundo. Foram parar em tudo que é canto. Os que ficaram na mãe África foram se adaptando as condições climáticas que o lugar os impunha. Aos que ficaram nas regiões abaixo do Saara, e portanto sem contato intenso com aqueles que habitavam os continente vizinhos (Europa e Ásia) acabaram por desenvolver uma pele negra, adaptada ao calor e as condições do Sol na região. Mas esse isolamento não foi de maneira nenhuma por tempo suficiente para que uma nova espécie de homem se desenvolvesse. Tão pouco uma nova raça. São apenas pequenas variações. Mas que no futuro farão toda a diferença entre eles e os outros.

Uma pedaço de chão disputado a tapas!

A região que hoje conhecemos por África do Sul sempre esteve sujeita a invasões e conquistas desde que o homem é homem. Contudo, os povos que a habitavam normalmente se viam subjugados por outros povos com características culturais e física semelhantes a eles.
Antes que os inquietos Europeus sonhassem com a existência da região, o lugar era a terra dos falantes da lingua Khoi-San (Sendo Khoi, um grupo étnico e San outro, mas que falavam línguas muito semelhantes, como, guardadas as devidas proporções um espanhol e um português). Os Khoisan são fisicamente diferentes dos futuros invasores. Eles possuem corpos mais delgados e pele mais clara. Seu modo de vida era nômade, não tinham o habito de criar animais de rebanho e viviam basicamente como caçadores e coletores nômades.

Mas eis que do norte, mais precisamente do que hoje são as regiões do centro da África, na região do Rio Niger, surgem os invasores. Eles são diferentes. São mais robustos, mais escuros. Eles sabem plantar a própria comida, eles sabem adestrar animais para comer depois e o mais importante. Eles tem armas de ferro. Os Bantu, originários do que hoje seria o Camarões e a Nigéria se espalharam por todo o centro e o sul da África numa longa e sucessiva onda de migrações, que provavelmente teve início com o advento da agricultura, por volta de 10000 a 6000 a.C. Conforme atingiam regiões de solo e clima mais propensos à agricultura, como o entorno do Rio Congo e dos grandes lagos africanos, essas populações Bantu cresciam exponencialmente a ponto de fundarem grandes aglomerados populacionais e em alguns casos, grandes civilizações, como a cidade conhecida como Grande Zimbabwe, capital do Grande Reino do Zimbabwe, que existiu por volta de 1250 a 1500 d.C. E cujas ruínas, os colonizadores europeus atribuíram a legiões perdidas de Roma. Esses europeus, não podiam aceitar a idéia de que um deles não estivesse metido em alguma coisa grande. De certo, quando Deus criou o Éden, deve ter pedido conselhos a um Europeu para colocar uma tal árvore maldita no centro do lugar.
A riqueza do Grande Reino do Zimbabwe vinha do comércio, de ouro, de marfim e principalmente de escravos capturados entre os povos da redondeza e vendidos aos árabes na costa leste ou aos europeus, na costa nordeste da África. A queda do grande reino ainda é uma incógnita, mas acredita-se que tenha sido por conta de esgotamento das riquezas que o sustentavam.
Isso forçou os Bantu a migrar novamente. Dessa vez mais para o sul. Eis que eles chegaram a região que seria mais tarde batizada de África do Sul. Expulsaram logo os Khoisan que viviam ali e se instalaram formando dois grandes grupos étnicos: os Xhosa e os Zulu.
Isso ocorreria por volta do século XVI. O que significa que os Europeus já estavam a tempos se lançando ao oceano na busca alucinada pelo caminho sul até as Índias Orientais. Já tinha topado com a América e já conheciam o sul do continente africano. Não que se aventurassem muito por lá, afinal eles morriam de medo do continente. Mas a doença que eles carregavam no peito e que só poderia ser curada pelo ouro era mais forte do que qualquer medo que pudessem ter. O portuga Bartolomeu Dias foi o primeiro a cruzar o Cabo das Tormentas, o ponto mais austral da África. Diz a lenda que esse lugar era tão temido pelos navegadores que só os loucos ou os suicidas tentavam atravessá-lo. 
Diz-se também que ele era habitado por um navio fantasma, um navegador aventureiro que se atreveu a desafiá-lo e que pagara um preço alto, a vida e a alma de sua tripulação. O nome do navio dele é Flying Dutchman (O Holândes Voador), figurinha carimbada nas histórias de pirata dos séculos XV ao XVIII, e recentemente do século XXI, nos dois últimos filmes da trilogia Piratas do Caribe, embora o capitão do Dutchman original não fosse retratado como meio cetáceo, meio homem e o nome dele não era Davy Jones, mas Van der Decken. A sina do Dutchman é vagar pelo oceano sem nunca voltar para casa até o dia do Juízo Final.
De qualquer modo os portugueses descobriram um jeito de enganar o Demo, cruzaram o Cabo das Tormentas e como que por mágica resolveram rebatizar o lugar para Cabo da Boa Esperança. Camões contaria essa história depois e imortalizar esses navegadores aventureiros na sua obra prima.
Ok, legal, mas qual a importância disso para a Copa na África? Bom acontece que enquanto os Bantu se assentavam na terra recém conquistada, os Europeus resolveram fazer o mesmo. Os que fizeram primeiro foram os Holandeses. Montaram um posto avançado na região, para parada dos Navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais (Chama-se de Índias, no plural, pois o que hoje conhecemos como Índia, não era um único país, mas vários, que os Europeus preferiam chamar de Índias ao invés de seus próprios e complicados nomes originais). Basicamente o lugar servia de porto e principalmente de fornecedor de escravos para a América. Os primeiros a perder a terra nessa história toda foram os Xhosa. Alguns holandeses protestantes, fugindo da perseguição do Rei Mundo (Felipe II da Espanha) acharam legal ir morar no extremo sul do continente africano, afinal não tinha ninguém morando lá, só um bando de negros Xhosa. Eles enxotaram os Xhosa para o interior e fundaram várias cidades coloniais onde a vida ia dura e monótona, até que os britânicos resolveram se instalar ali também e os dois grupos de Afrikaaners, como se chamavam aqueles brancos nascidos na região começaram a se estranhar. Começaram então a guerrear os Boers (Afrikaaners de origens variadas a maioria holandesa) e os descendentes de britânicos que se instalaram ali. E quem saiu perdendo com essa historia? Claro que foram os Bantus.
Acontece que...

No meio do caminho tinha um Zulu... Tinha um Zulu no meio do caminho.

Pois é. Os Zulus, povo guerreiro, não gostava nada daquela história de homens brancos tomarem as terras deles. E como eram maioria (e uma maioria violenta diga-se de passagem) os brancos morriam de medo de se meter a besta com eles. 
O mais importante Rei Zulu é Shaka. A história dele é complicada. Filho criado com a mãe, ascendeu ao trono em condições contraditórias, mas com um senso de liderança nato, conduziu seu povo ao desenvolvimento, fundou uma religião organizada e derrotou os britânicos numa das mais fantásticas batalhas do século XIX. Usando facas e escudos contra mosquetes e rifles, e claro uma estratégia superior, Shaka mostrou aos brancos que não seria só por causa das armas que eles dominariam seu povo. Contudo, a história costuma ser contundente. Após um grande rei/rainha, seguem-se governantes medíocres ou indecisos que levam seu povo a ruína. Com os Zulus não foi diferente. Shaka manteve os brancos no gelo por um tempo.
Mas, alguém ai já ouviu alguma vez na história, de um descendente de europeu deixar de fazer o que quer porque tem um nativo no meio? Os Boers mandaram uma delegação para fazer paz com o líder Zulu (Três gerações após Shaka) e pedir ajuda dele para expulsar os britânicos dali. O que fez o chefe Zulu? Talvez ele tivesse ouvido histórias das Américas, ou Montezuma foi falar com o Laibon (xamã africano) deles para não confiar naquelas histórias de homem branco. Seja como for o líder Zulu agiu de maneira surpreendente. Matou toda a delegação e mandou seus soldados fazerem a geral nos assentamentos Boers. Não perdoaram nem as crianças. Só sobrou uma italiana, que montou num cavalo e saiu em disparada para avisar o resto dos homens brancos o que estava por vir. Eles se armaram. Esperaram os Zulus. Para azar deles, começou chover, as armas de fogo não funcionariam. Já estavam resignados quanto a morte. Mas cadê esses Zulus? O dia veio, a pólvora secou e os Zulus apareceram para serem massacrados pelas armas européias. Explicação? Disseram os Zulus que um monstro os impediu de seguir em frente, ficou circulando o acampamento do céu (Disco Voador?! Nãããão!). Depois disseram que alguns de seus destacamentos se perderam retardando o ataque. Seja lá o que for perderam a chance de matar uma porrada de Boers, o que custaria muito caro para as gerações futuras de seu povo. O rei Zulu foi morto pelos próprios súditos e a paz foi celebrada com os Boers... por enquanto.

Vão-se os Zulus, ficam-se os Xhosas...

A briga entre Boers e britânicos era pelo controle das minas de ouro e diamantes, que ainda existem em abundância na África do Sul. E ela se prolongaria por mais de um século, até que no principio do século XX, os lados rivais se unissem para formar a União Sul Africana. E ai começaram de fato os problemas para as populações negras. O governo central resolveu adotar a política segregacionista que já existia nos estados independentes fundados pelos Boers. O famigerado Apartheid. A segregação étnica da África do Sul foi pior do que se pode imaginar. Não era só uma questão de separação entre Brancos e Negros, mas sim uma ação sistemática do estado para por fim a qualquer pretensão dessas populações negras a ter o mínimo de dignidade humana. O regime classificava em três castas, a população, Brancas (Boers e anglófonos), Coloured (Os descendentes dos Khoisan) e Indianos (Descendentes dos Indianos trazidos das Índias durante o domínio Britânico); e por fim os Negros (A grande maioria). Para cada uma dessas "castas" havia leis específicas, sendo a maior parte favorecendo a minoria branca. Para os negros não havia qualquer lei a favor. Eles não eram considerados cidadãos, não tinham direito a saúde, educação ou qualquer outro serviço fornecido pelo Estado. Eram parias, estrangeiros em sua própria terra, personas non grata. Consideremos que o apartheid foi instituído em 1948 e só acabou em 1994. O tempo de uma vida para toda uma população. Gerações perdidas nesse violento e ignóbil regime, que só não pode ser comparado ao Nazismo, porque comparada a ideologia nazista só o Inferno cristão. Mas o Apartheid certamente figurará entre as piores atrocidades que o  homem pode cometer contra um semelhante. Que vergonha para seus ancestrais australopitecus.
Contudo, existe luz nessa treva horrenda. A luz de um homem, que lutou pela liberdade, e que paradoxo, de dentro de uma cela onde amargou duas décadas e meia. Que não pode ver seus filhos crescerem, que não pode estar ao lado de sua mulher. Que entrou jovem e saiu velho. E que mesmo assim não se tornou amargo ou insensível. Esse Xhosa, bastião de tudo o que deve ser valorizado na postura de um líder contemporâneo e que é sem dúvida nenhuma o símbolo máximo dessa virada de mesa e de página na história da África do Sul. Mandela não só é um ícone para a África do Sul. Ele é e será lembrado eternamente como o bastião da liberdade para toda a humanidade. Um homem, não um santo ou um deus, que literalmente sacrificou sua vida inteira para que os sul africanos pudessem enfim amar uns aos outros como a si mesmos.

A importância desse evento para a África do Sul é muito mais do que mostrar que o país mudou. Muito mais do que mostrar que o "terceiro mundo" já não é aquela boca do inferno de antigamente. É um símbolo e uma demonstração para o mundo de que não existe, nunca existiu e nem existirá distinção entre seres humanos que justifique a dominação de uns pelos outros e de que nem mesmo ódios ancestrais, podem mudar isso.
Que os exércitos da paz entrem em campo. Defendam seus pavilhões e brinquem de ir a guerra. Invadindo o campo adversário e roubando a glória do oponente. Essa é a guerra boa de se ver. 
Viva a diversidade de culturas!
Viva a África do Sul!

domingo, 23 de maio de 2010

"God save the Queen!"

Olá caros leitores,
Desculpem pela longa demora na postagem, mas os tempos atribulados de nossa era contemporânea me consumiram deveras nas últimas semanas.
Hoje vou dar uma pequena pausa na mitologia e partir para um novo assunto, a história, atendendo a algumas amigas que me pediram para falar um pouco sobre as soberanas que mudaram a história da nossa civilização. E devo dizer, que muitos vão se surpreender pois não foram poucos os exemplos de mulheres que ao ascender o poder, mudaram a forma que a sociedade enxergava seu papel "secundário". Na realidade, muitas desses mulheres soberanas acabaram se tornando lendas, mitos, que influenciaram toda uma nação e posteriormente os movimentos feministas do século XX.
Então, vamos a elas.

"Onde deusas são cultuadas, mulheres são celebradas"

O subtítulo pode parecer óbvio, mas não tanto. Hoje, sabe-se que no período que comumente se denomina de pré-história o homo sapiens sapiens, já senhor da Terra, criando seus cultos ancestrais para justificar sua existência dava um valor importantíssimo a mulher. Porque? Oras, porque a mulher era o símbolo da fertilidade, aquela que carregava o futuro da espécie. O aguçado sexto sentido feminino, hoje provado científicamente, era visto como um dom mágico dos deuses, conferindo as mulheres poderes místicos, mágicos e essenciais para aplacar a fúria dos fenomenos naturais, grandes inimigos de nossa espécie naquele período. Dai as representações femininas que os escultores da época criavam, como a "Vênus pré-histórica" ai ao lado. Essa representação de formas avantajadas não deve ser vista como "oh! eles gostavam de uma gordinha! veja só", mas sim como um hiper realismo. Ou seja, as partes do corpo da mulher que a tornavam especial para a sociedade, eram superdimensionadas para enaltecer seu importante papel de mãe da humanidade.
Acredita-se também, que as primeiras sociedades tribais antes do advento da "civilização" tinham mulheres como líderes supremos, pois elas eram aquelas que sabiam se comunicar com os espíritos e conduzir os demais para o local seguro (novamente o sexto sentido).

Mas o tempo passa. A natureza já não é assim tão assustadora, o homem a dominou e não precisa mais de sexto sentido para se sentir seguro. O problema agora é que tem humanos para todo lado e como já era de se esperar, a "superpopulação" traz conflitos pelos recursos escassos. Nessas condições, o caráter conciliador feminino cede espaço a belicosidade da testosterona e os antes espíritos comunicativos da natureza dão lugar aos violentos deuses guerreiros. Nasce assim a sociedade patriarcal, que vai invariávelmente contaminar grande parte da humanidade ao longo da Terra.

E surgem as cidades e a guerra se torna um negócio mais complicado. Não é mais só invadir a aldeia do outro, tomar o que ele tem e voltar pra casa. Agora existem cidades muradas, armas que matam com muito mais eficiência e indíviduos que se dedicam a tarefas que não envolvem desenvolver músculos para a guerra. Assim, com a mansidão voltando ao homem, volta a mulher a retomar um papel importante na sociedade.

Antes de mais nada, gostaria de esclarecer uma coisa que é muito mal explicada. O título de rainha, no geral, não tem o mesmo peso de um rei. Na realidade, a rainha só governa na ausência de um rei e essa ausência tem de ser breve. É como, guardadas as devidas proporções, o cargo de um Vice Presidente. Quando o presidente morre, o Vice se torna presidente. No caso da rainha isso pode ou não acontecer. Vai depender exclusivamente de sua capacidade política de domar os rivais. Portanto, a velha máxima "não existe reino sem rei" é a mais pura verdade.

Um exemplo claro do que digo vem do Antigo Egito. Não existe termo feminino para Pharaoh, pois um Pharaoh não é somente um título, mas uma condição. Uma rainha que seja considerada digna de ser um Pharaoh tem o mesmo estatus político e social de um homem. Portanto ela não é mais uma rainha do Egito, mas sim um Rei do Egito. E não faltam exemplos.
A primeira que se tem notícias, apesar de ser muito controvérsa é Neitkert. Atribui-se a ela a restauração da piramide de Menkauré (no grego, Miquerinos, a menorzinha das três grandes de Gizé, hoje no Cairo). Ela teria assumido o trono após seu marido, o Pharaoh, ter sido assassinado por conspiradores e acabou reunindo as condições para sagrar-se um Pharaoh., acredita-se que isso tenha ocorrido por volta de 2184 a.C.

Outra famosa rainha que se tornaria Pharaoh seria Hatchepsut. Ela, esposa do rei Tutmés I (cuja história foi eclipsada pela magnitude de sua esposa e pouco se sabe sobre ele) teve de assumir a regência quando este faleceu e seu sobrinho, Tutmés III era muito jovem para governar. Os historiadores divergem quanto a idade em que ela assumiu (se entre 15 ou 20 anos). O que ninguém discute é o poder que ela exerceu sobre os egípcios e que mais tarde seria coroada Pharaoh sem contestações. Para legitimar seu poder, a mãe de Hatchepsut disse que fora visitada pelo deus Amon-Ra, que assumindo a forma do rei Tutmés I a informou que a filha que nasceria da união deles seria o novo Pharaoh do Egito. Os sacerdotes não queriam acreditar na história, mas como quem mandava agora era Hatchepsut e eles viviam na mordomia graças a ela, tiveram de corroborar com a historia e justificar portanto a ascenção da jovem rainha ao posto mais alto do reino egípcio. Seu governo transcorreu sem grandes percalços, paz e prosperidade. Acredita-se que ela conduziu algumas campanhas militares na Núbia (sul do Egito) com um general, que possivelmente foi seu companheiro durante seu reinado. Contudo, Hatchepsut foi inteligente o bastante para não se unir a nenhum homem e assim ser forçada a abdicar do poder conquistado. Ela reinou por volta de 1479 a 1457 a.C.

Já após a era de ouro egípicia (O reinado de Ramses II, o rei dos reis), uma nova Pharaoh seguindo os passos de Hatchepsut assumiu o trono após a morte de seu marido. O nome dela era Tausert, que significa "A poderosa". Tausert governou por dois anos oficialmente, mas uma vez que Siptah, o filho de seu marido Sethi II (Que não era filho dela por sinal) tinha uma saúde frágil (A análise da múmia indica que ele tinha uma perna atrofiada por conta de Poliomielite) provavelmente fora ela quem governou durante todo o tempo nos bastidores. O sucessor de Tausert usurpou a tumba que ela deve ter mandado construir no vale dos Reis e a múmia da rainha nunca foi encontrada. Algo curioso é que os registros apontam a atuação de um chanceller que foi o grande braço direito de Tausert, uma pessoa que deve ter tido uma importância tremenda no governo da Pharaoh, para ter merecido uma tumba de dignatário no vale dos reis, algo raríssimo.

E claro como não poderia deixar de ser ao falar sobre rainhas egípcias, chega a hora da mais famosa delas. Cleópatra. Primeiramente, apesar de ser considerada Egípcia, devemos nos lembrar que Cleópatra já faz parte da casta de egípcios de linhagens macedônicas. Ou seja, Alexandre o grande já passara por lá, conquistara o Egito e tomara o poder para um de seus generais, que após a sua morte tornou-se no novo "Pharaoh do Egito". Assim Cleópatra é muito mais grega que egipicia, diferentemente de suas antecessoras. Ainda assim, seu reinado foi uma demonstração de como uma mulher no poder pode ser uma estrategista inigualável. Após a morte de seu pai, Cleópatra casou-se com o irmão, que seria o novo Pharaoh. Era um costume comum que os membros da família real se casassem para assim preservar o poder. Contudo o irmão, muito mais jovem era uma marionete nas mãos dos cortesão egípcios. Percebendo que quem mandaria no mundo era Roma, Cleópatra enviou barcos para auxiliar Pompeu, que lutava contra César pelo controle da República. Acontece que os egípcios não gostaram da história e colocaram o povo contra ela, que se viu obrigada a fugir do país. Pompeu acabou perdendo a guerra e foi refugiar-se no Egito. Mas o irmão de Cleópatra, querendo agradar o vencedor mandou matá-lo e enviou a cabeça do infeliz para o romano. Ledo engano. César, furioso, e com uma desculpa mais que justificável, invadiu e conquistou o Egito para os romanos. Cleópatra, muito esperta, pediu uma audiência com o novo Tirano de Roma (Tirano na roma antiga era um ditador, mas não tinha nada a ver com o que conhecemos hoje por governante malvado). E ela o seduziu, enrolando-se num tapete e ordenando que seus servos a entregassem de presente ao conquisatador. Cleópatra teve um filho com César,
a cultura egípcia começou a fincar bandeira em Roma e tudo parecia transcorrer como ela desejava. Mas os senadores resolveram matá-lo no senado e a casa caiu para Cleópatra. Aliando-se ao braço direito do antigo amante, o general Marco Antônio, Cleópatra acreditou poder assegurar a independência de seu país. Mas ela encontrou um adversário de peso. Otávio, que tornaria-se o futuro e primeiro imperador de Roma, sob o título de Augusto, que para os romanos era a mesma coisa que Deus.


Mas o que explica então esse poder que as mulheres egípcias adquiriram, que foi somente muito tempo depois disseminado pelo resto do mundo e que em muitos lugares jamais aconteceu? Uma das explicações pode estar na cultura mitológica dos egípicos. Afinal, a dinvindade mais cultuada no Egíto era Hathor (Também identificada como Isis), a deusa da fecundidade, cujo culto era totalmente conduzido por mulheres. A divindade mais respeitada era Maat (aquela cuja pena vai pesar seu coração no pós vida). Isis era a esposa de Osíris e foi ela, a "Grande esposa" que governou o Egito enquanto o filho deles, Hórus, não tinha idade suficiente para assumir o trono. Ou seja, os mitos de mulheres deusas que poderiam governar na ausência de homens, prepavaram terreno para que no plano físico isso fosse aceito com mais facilidade.

"As guerreiras e as bruxas"

Vamos dar um saltos agora. Sair do Egito e ir para os Balcãs. Ainda no período repúblicando, quando Roma ainda era governada pela "democracia" dos patrícios, uma mulher ascendeu ao poder após a morte de seu marido. Seu nome era Teuta e ela era a rainha dos Ilírios. Os Ilirios eram um povo cuja especialidade era a pirataria no mar mediterrâneo e os romanos, afeitos ao comércio não gostava nada daquilo. Durante o reinado de Teuta, seu povo anexou várias outras terras ao redor e crescia em poder e influência. Então Roma mandou uma missão dipomática para ter com essa Rainha pirata. Diante do desrespeito que o embaixador demonstrou para com a soberana, Teuta não teve alternativa se não decapitar o embaixador e declarar guerra a Roma. Azar o dela. Com o pretexto armado, Roma invadiu e conquistou. Teuta vendo que não teria saída se rendeu e os romanos a deixaram governar. Desde que pagasse tributo a eles pelo resto dos seus dias.

Agora vamos para a Bretanha. Tenho uma amiga que se tornou fã de uma certa rainha celta, que durante muito tempo permaneceu no esquecimento, mas cuja lenda foi retomada durante o reinado de outra poderosa rainha, talvez a mais famosa entre elas. O nome dessa infeliz celta era Boudica. Infeliz porque ela se tornou rainha em circunstancias excepcionais e parece que os deuses Celtas viraram as costas para ela e correram. Quando os romanos, lá pelos idos de 60 d.C chegaram a Bretanha (o que hoje é chamado de Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales) o Rei dos Icenos, um povo celta que habitava a região aliou-se a eles para mater seu povo independente. Acontece que durante uma guerra contra povos rivais o rei morreu e os romanos não quiseram nem saber de manter o acordo. Conquistaram os Icenos, açoitaram a rainha Boudica diante de seus súditos e violentaram suas filhas. Depois as expulsaram da sua terra.
O problema é que Boudica não era flor que se cheirasse. Diziam-se que ela era alta, ruiva e que tinha uma voz assustadoramente poderosa. Ela acabou se tornando o pior flagelo romano na região. Reuniu um exército grandioso, destruiu três colonias romanas na região, matando por volta de 80.000 pessoas uma delas Londinium, que hoje é a capital da Inglaterra, mas que Boudica sem dó nem piedade jogou pro chão e reduziu a cinzas. Os romanos se reorganizaram e foram para a luta. Apesar de não se saber exatamente onde ocorreu o embate entre os exércitos liderados por Boudica e os Romanos, sabe-se que ela perdeu. E o motivo é simples. Os romanos eram os senhores da guerra em seu tempo e ninguém os derrotava. Diz-se que para não cair nas mãos deles novamente a rainha celta se matou. Mas seu legado permaneceu no trabalho dos historiadores romanos e mais tarde seria evocado como ideal romantico da formação do orgulho Britanico pelo governo da Rainha Vitória.

Agora vamos para a África. E meus caros amigos, essa aqui vai surpreender vocês.
Lá pelos anos de 1622, o entreposto português na costa ocidental da África recebeu uma delegação diplomática do povo Ndongo. A frente deles seguia uma mulher, irmã do rei dos Ndongo que seria a interlocutora entre seu povo e o governador português João Correa de Souza . O motivo, os portugueses pararem de capturar escravos ou de recrutar seu povo para capturar escravos na região e, principalmente, que desmontassem a fortaleza que construíram na costa de suas terras. O nome dessa rapariga era Nzinga Mbande. Diz-se que ao chegar ao local da conferência, o governador português não deixou uma cadeira onde ela pudesse se sentar. No lugar colocou um tapete, o que a deixaria em posição desfavorável em relação a ele. Sem pensar duas vezes, Nzinga ordenou que um de seus criados ficasse de quatro sobre o tapete e ela sentando-se sobre ele ficou na mesma altura do governador português durante toda a conferência, demonstrando assim, que eles tratariam com uma igual. João falhou em convencer a mulher com seus argumentos para justificar suas ações, para cada proposta, Nzinga vinha com um desarme. Mas a habilidade diplomática da embaixadora os conduziu a um instável acordo de paz. Para selar seu compromisso Nzinga se converteu ao Cristianismo.
Os portugueses por sua vez não cumpriram o acordo. E o irmão de Nzinga envergonhado se matou. Ela então assumiu o trono como regente de seu filho, que morreu logo depois e assim ela assumiu definitivamente o posto de Rei dos Ndongo, pois recusou terminantemente ser chamada de rainha.
Um novo governador portugues chegou. Nzinga ordenou que o acordo fosse cumprido, mas os portugueses deram de ombros. Então ela foi para a guerra. Os portugueses levaram a melhor e a expulsaram de suas terras. Nzinga levou seu povo para a região de Imbangala, onde para reforçar sua posição, diz-se, adotou os cultos canibalísticos dos povos da região. Não se sabe ao certo se essa história é verdadeira ou se foi espalhada pelos padres portugueses para desqualificar a imagem da rainha. O que acontece é que ela manteve o poder e logo atraiu a atenção dos Holandeses que dominavam o Congo, que ofereceram ajuda para que ela retomasse suas terras em troca de acordos comerciais. Vendo ai uma oportunidade única Nzinga aceitou, derrotou os portugueses mas não conseguiu expulsá-los do território. Os portugueses contra atacaram. Os holandeses tomaram Luana e quando Nzinga estava prestes a expulsar os lusos da terra, eis que nossos patrícios brasileiros vieram em seu socorro comandados por Salvador de Sá, ex-governador do Rio de Janeiro, que lutou contra a invasão holandesa no nordeste e veio ajudar os portugueses a expulsar os holandeses dessa região da África também. Mas Nzinga manteve os territórios conqusitados e os portugueses tiveram de reconhecer sua autoridade. Nzinga comandou os exércitos em cada combate, acredita-se até os sessenta anos.
Durante seu reinado pós guerra, seus maiores esforços eram o de repatriar ex-escravos. Ela tentou reconstruir sua nação, devastada pela longa guerra e todas as tentativas de destroná-la fracassaram. Nzinga morreu aos oitenta anos, tranquilamente. Somente após a morte de Nzinga é que os portugueses conseguiram conquistar o território, que seria chamado de Angola, por um erro. Ngola era o título dos nobres da região. Conta-se também que a rainha tinha um harém inverso, ou seja um harém só de homens e que uma de suas diversões era vê-los brigar pelo direito de dormir com ela por uma noite. Nzinga hoje é a heroina da identidade nacional Angolana. Há ruas em sua homenagem e uma estátua na capital onde todas as noivas vão para tirar fotografias, na esperança de que a Rainha Guerreira conceda força e felicidade a seu casamento.

Na Ásia, existia um mito, de uma rainha bruxa que governava o povo dos Wa. Os chineses chamavam aquele povo bárbaro que vivia numa ilha oriental de Wa e quem os governava era a rainha xamã Himiko. Pouco se sabe sobre ela, e se ela realmente existiu. Há relatos dos escribas chineses, mas só. Diz-se que ela ocupava-se de magia e que seu povo nunca a via. Ela não se casara e que seu palácio era cercado de torres, ela cercada de milhares de criadas e um único homem. Ainda assim, Himiko (ou Pimiko) figura entre as históricas figuras femininas que ajudaram a construir a cultura de seu povo, os japoneses.



"Rainhas modernas"

Como falar de Rainhas e não falar das mais famosas delas?
Vou começar pela responsável pela nossa existência portanto. Isabella de Castile e Leon, ou Isabella I. A rainha que expulsou os mouros da península ibérica, unificou a Espanha e patrocinou a expedição de Colombo a América. Pouca coisa não? Bom ela era uma religiosa fervorosa também. E compadeceu-se dos povos indígenas do novo mundo, proibindo que seus súditos, os espanhóis, os fizessem mal. Acontece que a Rainha estava muito longe e os índios muito perto, pobres índios. A mãe dela ficou louca quando era criança. Sua infância foi a de uma pobre aristocrata, pois a Espanha não existia. Os mouros detinham metade da península hibérica e ela teve o azar (ou sorte) de nascer cristã. Assim ela caçava coelhos nas florestas (para comer!) junto com o irmão, tomava banho de cachoeira e montava a cavalo, coisa rara para uma nobre cristã de sua época. Sua mãe, antes de enlouquecer, lhe garantira uma educação decente, para que a jovem pro-ativa arrumasse um marido rico que lhe desse uma vida melhor. Bom, Isabella tinha outros planos. Quando a filha da rainha Joana, esposa do Rei estava para nascer, Isabella e o irmão foram convocados a corte (pois se a menina nascesse e fosse mesma filha do rei, pois essa rainha era bem promíscua eles não teriam seu direito ao trono assegurado). E como ninguém acreditava que a criança fosse mesmo filha do rei os cortezãos se apressaram para que os possiveis herdeiros estivessem presentes no caso de uma reviravolta. A vida da jovem Isabella melhorou bastante. Agora ela não precisava mais caçar coelhos e tinha quartos adornados com ouro. A vida na corte era conturbada. Os senhores feudais queriam tirar poder do rei e forçar ele a abidicar em favor de seu filho, que poderia ser controlado mais facilmente. Ele o fez, mas o filho morreu (provavelmente envenenado) e a bomba caiu nas mãos de quem? Ela mesma. Agindo diplomáticamente, Isabella conseguiu dois trunfos. Assumiu o poder sem derramar sangue e conseguiu consentimento do pai para que ele não a forçasse a se casar com ninguém sem seu consentimento.
Para que pudesse assegurar o reino, Isabella precisava se casar com alguém. Mas os pretendentes eram difíceis, ou porque ela não queria ou porque o pai não queria. Sobrou Fernando de Aragão, que havia sido o "marido original" pois eles foram prometidos ao casamento quando ambos tinham 3 anos de idade, mas o acordo fora desfeito pelos pais. Acontece que havia um problema espiritual na união. Os avós dos dois eram irmãos e só o papa poderia consentir o casamento. Isabella, religiosa só aceitaria o casamento com o consentimento do Vigário de Roma. Descobrindo o intento, o pai dela tentou impedir o casamento, pois lhe era desfavorável, mas o Papa acabou consentindo e os dois se uniram.
O reinado de Isabella foi o início da ascensão da Espanha como potência mundial. O encontro da América por Colombo deu a nascente nação um impulso inigualável. Contudo, Isabella, religiosa fanática, reforçou a posição da inquisição em suas terras expulsando os judeus e muçulmanos que viviam ali ou convertendo-os a força. Diz-se que inclusive, ela era melhor regente que seu marido e que a colonização da américa se deu basicamente pelo povo de Castile, por isso comumente se diz que o espanhol falado na América é o Castelhano.

Outra importante Rainha reformadora foi Catherine II da Russia. Ela viveu em um período conturbado, revoluções pipocando por toda parte e a nossa era contemporânea estava nascendo. Durante seu reinado a Russia cresceu horrores. Anexou territórios por toda a região. Catherine foi uma modernizadora, sempre antenada com o que ocorria na Europa Ocidental. Um marco na história da Rússia, uma vez que o país esteve sempre voltado para a região oriental. Sua ascenção ao poder se deu através de uma conspiração e ela reinou durante 37 anos, com mão de ferro. Também é conhecida por ter tido inúmeros amantes e de ter sido deveras generosa com eles. Ela morreu de um derrame.


E claro, para coroar esse post tão cheio de coroas nada mais justo do que falar sobre as duas maiores e mais famosas rainhas da história. Elizabeth I e Victória da Inglaterra.

A primeira amplamente conhecida, graças aos inúmeros filmes que a retratam dispensa comentários. Elizabeth é filha de Anne Boleyn, a mulher que virou a cabeça de Henry VIII e fez com que o rei criasse uma igreja só para se casar com ela. A mãe de Elizabeth terminou decapitada quando a jovem princesa era ainda um bebê, mas os genes da mãe foram mais fortes nela. Elizabeth se tornou a herdeira da dinastia dos Tudor, governou a Inglaterra por 44 anos e foi responsável pela fundação do Império Britânico, com a incontestável vitória sobre a Invencível Armada de Espanha, potência indiscutível na época. Elizabeth era uma mulher forte, determinada e que a exemplo de outras rainhas poderosas não se uniu a homem nenhum para legitimar seu poder indiscutível como Rainha da Inglaterra. Na realidade, mantendo-se "virgem" e solteira, Elizabeth assim como as Pharaohs egípcias, adquirira o respeito dispensado apenas aos Reis, feito que não será equiparado por nenhuma outra rainha de seu tempo e posterior.

Se Elizabeth fincou a bandeira. Victória construiu a casa. Reinou por 64 anos e detinha uma míriade de títulos. Essa mulher era praticamente dona do mundo.
Para ascender ao trono ela teve de esperar quatro filhos homens morrerem. Coroada aos 18 anos. Ela cresceu isolada, não lhe permitiam ter contato com outras crianças ou com quem quer que fosse sem o consentimentos daqueles que cuidavam dela, sua mãe e o amante dela. Quando Victoria assumiu o trono baniu o amante e mandou a mãe para bem longe, nunca mais querendo vê-la. Graças a extrema moralidade de sua mãe, Victoria acabou impregnada de idéias repressivas em relação a sexualidade, o que mais tarde seria uma conduta adotada por toda a sociedade Britânica, conhecida por Era Vitoriana.
No seu diário ela diz que um dia foi acordada por sua mãe as seis da manhã dizendo que o Arcebispo de Canterbury (Líder da igreja anglicana) precisava vê-la. Ela foi de roupa de dormir mesmo até o encontro do arcebispo na sala de reunião e ele a informou que seu tio, o Rei não estava mais entre eles. E portanto ela era a Rainha da Grã Bretanha.
Como uma mulher sem filhos não poderia governar nesse período trataram logo de arrumar um marido para a jovem.Que viria a ser um alemão, o principe Albert. Foi amor a primeira vista.
Mas nem todos amavam a rainha. Quando estava grávida do primeiro filho ela sofreu um atentado, mas o atirador errou os dois disparos que fez. Ela sofreu outro atentado que igualmente foi frustrado. O casal, teve nove filhos e agora sabe-se que Victoria utilizou-se de anestesia para um dos partos, algo extremamente inusitado para a era em que vivia.
Após 21 anos de casamento feliz, o principe Albert morreu de febre tifóide e isso a devastou completamente. Victoria voltou a se isolar e sua popularidade começou a cair, mas ela foi recuperada no final de seu reinado.
A Grã-Bretanha nesse período já era uma monarquia constitucional como é hoje, contudo a figura da rainha era muito mais importante. Foi durante seu reinado que os britanicos se consolidaram como modelo a ser copiado. Venceram as guerras napoleonicas, colonizaram metade do mundo e expalharam sua própria língua pelos quatro cantos da Terra, e que mais tarde se tornaria a língua franca da Terra, a despeito de Franceses e e Espanhóis.

"Enfim o feminismo"

Com a industrialização e depois com as guerras, as mulheres passaram a retomar seu poder na sociedade, que agora já não poderia mais se sustentar em antigas tradições, pelo menos no mundo ocidental. O feminismo portanto trouxe conceitos da antiguidade para evocar o poder feminino, contudo o erro das feministas do início do movimento, hoje apontado pelas próprias, foi ter tentado igualar-se ao homens em todos os aspectos. Como podemos ver nos exemplos de sucesso das mulheres que alcançaram o poder no passado, esse tipo de enfrentamento normalmente resulta em uma ampla resistência. Mulheres e homens são diferentes, pensam diferente, governam de formas diferentes e isso já era sabido desde o tempo das cavernas. Se mal ou bem, o tempo é que vai julgar. Contudo, vale uma ressalva. Alguém já ouviu falar de alguma "Ivana, a Terrível?"

domingo, 2 de maio de 2010

"A dura Vida dos mortos"


Bem... acontece que você subiu no telhado, bateu as botas, juntou os pés, foi comer grama pela raiz, descansou, fez a passagem, ou seja, você morreu. Mas o que julgava ser um merecido e tranquilo descanso vai se revelar o início de uma grande jornada de provações, dependendo de onde você morreu e no que acreditava. Bem vindo a dura vida dos mortos!

Hora do julgamento!

Você desperta em um lugar estranho e a sua frente há um gigante com cabeça de cachorro nada amistoso. Bem, isso não lhe seria surpresa alguma se você morasse no Antigo Egito. Isso significava que seu corpo havia sido mumificado, que seus parentes e amigos tinham feito os rituais adequados e agora finalmente você poderia colocar sua existência em jogo. É porque para eles não bastava morrer. Morrer era só o primeiro passo da existência. Agora era a hora da verdade! O gigante em questão é Anubis, o responsável por conduzir os mortos até o julgamento de Osíris. Diante do Deus morto estava a balança da verdade, onde seu coração (isso mesmo seu coração) seria pesado. O contra peso seria a Pena de Maat (verdade), que representava todas as diretrizes que você, egípcio, teria de seguir em vida se quisesse continuar existindo. Veja que, eles estão pesando o seu coração com uma pena! Se a balança permanecer equilibrada você poderá ir viver no Sekhet Aaru (Campos de junco), o paraíso, onde você viveria feliz com seus escravinhos de barro repetindo a vida que levava na terra sem se preocupar em sofrer. Contudo, se a balança pendesse para o lado do coração... Uma quimera infernal (um monstro de três cabeças, sendo crocodilo, leão e hipopótamo) chamada Ammut surgiria do nada e devoraria sua alma, relegando-o ao oblívio. Ou seja, a inexistência. Você simplesmente deixaria de existir, ninguém se lembraria de você. Você não seria mais. Esse era o pior de todos os castigos para os egípicos, muito mais que a morte ou sofrimento. Então, se quando morrer se deparar com um homem com cabeça de cachorro é bom ter sido uma boa pessoa ou não adianta nem apelar, a lei de Maat é implacável!
Mas se você acha isso aterrorizante, espere até ver como um Asteca alcançava o paraíso.

"Hora do desafio!"

Quando você abriu os olhos, só existia um homem negro, sem um dos pés a sua frente. No seu pescoço estava um espelho enfumaçado e ele não tinha cara de bons amigos. Na realidade quando ele abria a boca você podia ver as presas de jaguar bem afiadas reluzindo na escuridão. Tezcatlipoca (ele mesmo, o irmão encrenqueiro de Quetzalcoatl do último post) é quem recebe você na passagem do mundo meso americano. Primeiro ele vai se certificar de como você morreu. Se era um homem guerreiro e morreu na batalha ou uma mulher valente que morreu parindo vai te mandar para o paraíso do Sol. Se morreu afogado, vai para o paraíso de Tlaloc (Deus das chuvas) agora se você é um infeliz que morreu de qualquer outra maneira, meus pesames, vai ter que penar pra conseguir o paraíso.Ele vai te mandar atravessar nove lugares tenebrosos para enfim se apresentar ao deus dos mortos e pleitear a sua entrada no paraíso. O primeiro deles já é uma pedreira. Você terá de atravessar um rio caudaloso, mas jamais conseguiria sozinho. Então um cachorro gigante chamado Xolotl, vai te ajudar. Acontece que se você alguma vez maltratou um cão na vida, o cachorro nem vai olhar para sua cara e você ficará vagando pelo mundo como uma alma penada. Caso você tenha sido bom com os animais, ele vai te ajudar a atravessar. Mas do outro lado o que te espera não é nada amistoso. Vai encontrar um lugar onde montanhas se chocam, onde nevascas cortantes como agulhas lhe fustigam, onde chovem lâminas afiadas, terá de atravessar um deserto congelado, depois um em que mãos invisíveis te crivam de flechas, um pântano em que monstros tentam devorar seu coração e finalmente um lugar onde você não enxerga nada e ainda sim tem de vaguear entre nove rios para enfim chegar ao senhor dos mortos. Acabou? Não. Agora ele vai te pedir a oferenda, hahaha! E ai de você se quiseram te sacanear. Quando um azteca morria, colocavam uma lasca de jade na sua língua e o morto teria de carregá-la por todas as provações até o deus do Mictlan para enfim apresentar a ele a lasca de jade que permitiria ao morto entrar no paraíso. Se você não tivesse essa lasca ele te mandava voltar por tudo isso ai e viver como alma penada entre os vivos. Sacanagem.

Entre os Maias não era muito diferente. O nome da morada dos mortos para eles era Xibalba que era composto por sete casas e cada uma tinha um demônio sacana. E mesmo pra chegar até lá já tinha desafios a cumprir. O primeiro era atravessar um rio cheio de escorpiões, depois um cheio de sangue e o terceiro cheio de pús (ECA!). Depois você chegará a uma encruzilhada com quatro direções a seguir e em cada uma delas há um engraçadinho que vai fazer você se perder e voltar sempre pro mesmo lugar. Se você conseguir passar disso chegará a Xibalba. Lá os seis demônios te esperam, com uma porção de cópias deles e você deve descobrir quais são os verdadeiros. A cada erro eles vão zombar de você. Quando você descobrir, vão te pedir pra sentar ao lado deles, mas esses demônios são sacanas. O assento destinado a você é uma frigideira fervendo. Depois de te fazerem de palhaço vão mandar pro teste de verdade. Cada uma das seis casas tem um desafio. A primeira é absolutamente escura e você tem de atravessar as cegas sem ponto de luz pra te guiar. A segunda é um freezer absurdo onde até seus ossos podem congelar e se partir. Para dar uma esquentadinha, na terceira você vai ter que correr de uns jaguares famintos, na quarta de uns morcegos vampíros famintos, na quinta de lâminas que voam pra lá e pra cá e na sexta e última atravessar uma sala tão quente quanto o interior de um vulcão. Se passou tudo isso inteiro, parabéns o paraíso é seu.

"Morte melancólica"

Mas se você nasceu grego antigo, bom a coisa será mais fácil. Hermes, o deus mensageiro, irá te conduzir a entrada do mundo dos mortos e tudo o que você precisa fazer é pagar o barqueiro Caronte. E acredite, ele é bem sovina. Tão sovina que matou seu próprio irmão Corante (isso mesmo o nome dele é Corante, agora entenda o porque) só porque este descobriu que ele o estava roubando. Caronte o afogou no Aqueronte (Rio das Dores) e desde então o rio foi tingido com seu sangue e ficou vermelho (por isso Corante é nome de tinta). Caronte é feio que doi e por isso usa uma máscara para não assustar os "clientes". Se alguém quisesse te sacanear, não colocaria a moedinha na boca de seu cadáver e assim, você não poderia pagar o barqueiro e ficaria forçado a viver como alma penada eternamente. Se você pagar sua passagem só de ida pro Hades, quem te recebe do lado de lá é o cão infernal Cerberus, que tem três cabeças para ter certeza de que nenhuma alma arrependida queira voltar pro mundo dos vivos. No Hades, você vai viver em melancolia para o resto da sua existência. Paraíso para os gregos só para aqueles que os Deuses agraciassem com a estada nos Campos Elísios  Caso contrário é sofrimento mesmo. Mas poderia ser pior. Dependendo da sua perfídia, você poderia ser condenado ao Tártaro, o pior lugar do Universo. Lá você seria obrigado a sofrer o seu pior pecado. Digamos que você fosse guloso e que por isso fez muitos sofrerem. Bom, agora você será obrigado a ver a comida e a bebida, e nunca alcançá-las... PELA ETERNIDADE!

Se você nascesse no Japão, você seria mandado para o Yomi. Independente de ter sido, bom ou mau, herói ou vilão, na mitologia shinto todos vão pro mesmo lugar e ficam lá, no escuro, deprimente e solitário leito de morte para sempre.

Esse também era o destino dos infelizes Nórdicos que não morressem com uma espada nas mãos. Se você fosse nórdico (também conhecidos como Vikings pela cultura popular) e morresse numa luta sangrenta, parabéns. Tão logo fechasse os olhos veria as lindas Valkírias, mulheres guerreiras aladas, que viriam buscar sua alma e levar para o Valhala, o palácio dos cadáveres de Odin, onde você, seus amigos e inimigos lutariam o dia inteiro e festejariam a noite inteira até o Ragnarok (Fim do mundo). Mas se você morreu de qualquer outra maneira, pobre infeliz, você vai mesmo é pro Niflheim. Lá governa a terrível Hel. Uma deusa que é metade mulher metade cadáver. O Nifleheim tem três níveis, um deles só habitado por heróis e deuses em festa. No outro, pelos bons que foram incapazes de morrer lutando (idosos, doentes, crianças e mulheres) e por fim o terceiro piso era para onde as pessoas ruins eram mandadas para serem torturadas... PELA ETERNIDADE!

"Purificando a alma"

Já não bastasse o sofrimento da vida, teríamos também de passar por sofrimento na morte? Bom, para algumas tradições sim, dependendo da sua conduta em vida. Para os casos acima, excetuando alguns, nem todos eram merecedores do paraíso, mesmo que se arrependessem ou que fossem purificados pelo sofrimento. Gregos, nórdicos e egípcios, por exemplo, não costumavam dar segunda chance aos pecadores. Para as religiões derivadas do hinduísmo e do judaísmo, contudo, isso não é bem assim.
Hindus, budistas, janaístas, etc. Acreditam que as almas impuras eram enviadas para o Niraya. O lugar de sofrimento terrível, mas que tinha um propósito, purificar a alma pecadora para que ela pudesse alcançar a salvação.

Para os Incas, os pecadores voltavam para o Uku Pacha, o lugar de onde todos vêm e esperavam para renascer e ter outra chance e continuariam nessa sina até poderem ascender ao Hanan Pacha, o paraíso onde viveriam próximos, mas não junto aos deuses. Para eles viver era uma oportunidade e irritar os deuses era um perigo, pois ser mandado de volta ao Uku Pacha significava sofrer a espera de poder nascer outra vez no Kay Pacha (nosso mundo).

Para Judeus, Cristão e Muçulmanos, após a morte a alma descansa  Sim. Apesar de muitos religiosos de seitas cristãs (Católicos, Protestantes e Ortodoxos)afirmarem que as almas dos pecadores vão direto pro Inferno isso não é verdade segundo os próprios conceitos de sua religião. Assim que morre, o indivíduo dorme até o dia do Juízo Final, quando finalmente seus atos serão julgados por Deus e ai sim ele será condenado ou absolvido de suas faltas. Condenado, será lançado no Inferno, onde permanecerá até que sua alma seja purificada. O inferno para as três religiões abraâmicas  portanto, não é um fim, mas sim um meio, assim como nas de tradição hindu. É um "mal necessário", o castigo final de Yaweh/Alah para que a lição seja enfim aprendida e o pecador possa afinal, alcançar seu lugar ao lado d'Ele.

Mas então porque o dogma do Inferno é tão presente no cristianismo em geral? Acontece que a nascente Igreja Cristã em Roma, de modo a convencer e converter melhor e mais rápido os pagãos à sua fé, teve de adaptar-se as crenças da época. O Inferno cristão tradicional é muito parecido com o Hades/Tártaro Grego. A adoração de imagens, um contra ponto em relação às outras tradições abraâmicas  também é um reflexo dessa necessidade de conformação a um mundo diferente do que era encontrado na região em que Cristo teria vivido. Assim, com o passar dos anos e a amálgama de várias culturas, a religião cristã européia, cuja Igreja Católica é a herdeira direta, assumiria uma forma de culto cristão peculiar que mistura elementos pagãos e cristãos numa liga muitas vezes complexa de se entender. O protestantismo, numa tentativa de afirmar-se diferente, aproximou-se mais da tradição judaica. Mas não abandonou a ideia pagã do Inferno de sofrimento eterno para os pecadores.

"Descanse em paz"

Mas nem todos deveriam passar por algum teste ou sofrimento. Os Celtas acreditavam que após a morte, independente da sua conduta em vida todos mereciam o paraíso, pois todos eram imaturos e impuros diante dos deuses. Curiosamente, ainda assim eles não se matavam por qualquer besteira ou não cometiam atrocidades mil só porque não tinham o perigo de serem castigados no pós vida.

E mesmo para aqueles que não seguem nenhuma tradição religiosa, a morte é um mal necessário. Afinal, a vida só pode existir graças a morte de outros seres. Assim, a morte, essa dama tão temída, vive de mãos dadas com a vida. A vida te empurra ao nascer, mas é nos braços da morte que você vai parar. Hehehehe!